Algumas considerações sobre astrologia, oráculos, atores, performance e função dramática

Algumas considerações sobre astrologia, oráculos, atores, performance e função dramática

By | 2018-04-03T19:58:45+00:00 quinta-feira, 29 mar 2018|Prática|1 Comentário

Oráculo é todo e qualquer jogo, aberto sob o signo do acaso, que se estrutura e fala segundo gramática própria e versa sobre a sorte e suas vicissitudes.
Toda consulta a um oráculo produz um lance de dados.
O oráculo é estrutura narrativa, produz trama de significados.
Ao se abrir o oráculo, o curso da narrativa começa o seu percurso.
Não há acaso para a gramática, muito menos para a narrativa ou enredo.
O acaso está contido no coração do texto.
O oráculo não existe, é preciso criá-lo.
O oráculo só existe se alguém consultá-lo.
O primeiro passo está no corpo da voz de quem o busca.
Não é prudente oferecer a leitura da sorte como o vendedor que grita suas ofertas nos corredores do mercado.
Baralho, runas, estrelas – o material do jogo pouco importa, o que interessa é a narrativa fruto do lance de dados.
A sorte tem rumo, mas o oráculo é uma volta ao centro do mundo.
O oráculo é o umbigo do mundo.
E o umbigo é a marca entre mundos.
O oráculo nos une aos que foram e aos que virão.
O oráculo é um buraco.
O oráculo é um arco.
Quem busca o oráculo o faz na ambição de dar pernas ao Destino, este ator invisível.
“Quem me tornarei no fim da vida?”
“Quem estou me tornando a cada passo?”
“Estou me tornando quem eu sou?”
Oráculo é cavalo da sorte, televisão do mundo, mordida na maçã anciã.
O texto oracular versa sobre o futuro, o presente e o passado, mas o tempo da oráculo é agora e atemporal.
Temporal.
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Não há verdade, o que há são narrativas.
Roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros.
Ler um oráculo equivale a fabricar um mundo: cinema falado.
– é um ato poético.
poiésis: fabricar mundos com palavras.
É um ato terrível.
É um ato primordial.
poiésis: “um produzir que dá forma, um fabricar que engendra, uma criação que organiza, ordena e instaura uma realidade nova, um ser.” (Benedito Nunes)
A voz do oráculo fala uma língua ritual.
O hálito do verbo une os átomos.
O oráculo compõe uma cena dramática tão antiga quanto o signo.
“Como vencer a morte e o mistério com o auxílio de algumas fórmulas gramaticais?”
O tradutor faz uso da palavra.
Quem pergunta faz uso da palavra.
Dentro da boca há um céu.
A representação é e não é o mundo.

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Poeta, Astrólogo e Saturno, creio, são sinônimos. Poesia deve ser a medula de Saturno. Ou melhor: o visco da medula de Saturno, o musgo. O musgo do tempo. Cada mapa tem uma voz interior, assim como um bom poema e o espírito de cada dia. Traduzir um mapa é escrevê-lo, cravá-lo nas costas do Tempo. E, para traduzir, é preciso fazer escolhas narrativas que a própria estrutura oracular propõe. Saturno é Mercúrio. Mas quem prepara o objeto-poema-celeste é o poeta-astrólogo-adivinho. E é de sua responsabilidade a feitura do texto.

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Os atores:

Quem pergunta, quem responde, quem traduz.

Quem pergunta é da Lua.
A ferramenta que delimita a resposta é de Marte.
Quem traduz é Mercúrio.

Lua

Quem pergunta sofre de dúvida – é a razão da existência do oráculo.
Tem tatuado nas pálpebras a seguinte máxima: crença é profecia, crença é profecia, crença é profecia…
Quem pergunta é Tirésias ao contrário.
Quem pergunta ama o oráculo.
Quem pergunta odeia o oráculo.
Quem pergunta transfere ao oráculo a sua esperança.
Quem pergunta transfere o seu horror.
Quem pergunta transfere o seu amor.

Marte

A máquina lembra que há um modo para operar a máquina.
O oráculo é máquina que debulha sentidos, arma a granada, separa o caos do lince.
O oráculo é métrica, rima, mídia – é o labirinto e o fio da narrativa.
Sua principal lâmina é a analógica
Tem grafado no seu metal a seguinte frase:
Mau agouro não é prognóstico.

Mercúrio

Tem a obrigação de dominar a máquina analógica, a arte da correspondência.
O tradutor alia-se aos que um dia doaram as suas vidas e se feriram no reflexo das facas de Marte.
A tradição remete-o ao modus operandi dos que um dia trilharam esta mesma estrada.
Mercúrio é a ponte entre a Lua e Marte e Marte tem lá seus segredos com Hades.
A pessoa do tradutor do oráculo não existe, ao menos esta é a sua busca, sua Fortuna.
Ele é apenas o mensageiro.
O respeito à tradição evoca a proteção do espírito dos mortos.
O desdém à tradição evoca a indiferença do mundo dos mortos.
Quem olha nos olhos do lince tem o compromisso de ser fiel ao lince.
Depois de muito uso da ferramenta, cria-se uma aliança com a própria escuta e uma marca no fio da faca a ser deixada para posteridade.
Oráculo é escuta.
Oráculo é ofício dos segredos da tradução.
Mercúrio encontra-se entre a tradução e a traição.
Traduzir é ser fiel ao caminho do lince.
Mas, diante de uma encruzilhada, quem arbitra o caminho a escolher na tradução é o intérprete.
Quando o oráculo fala mais da pessoa do tradutor do que do texto a ser traduzido, o mistério fecha-se como o amor quando se fecha em copas.
Só há determinismo onde não há mistério.

A função dramática

A consulta oracular é uma performance art.
Performance art: obra estruturada sob o signo do acaso, impossível de ser reproduzida.
Tem a função de preparar quem pergunta à sorte que o anuncia.
“Entre o sim e o não existe um vão.”

A performance

É o que acontece durante a ação dramática.
Joga-se a sorte.
No tabuleiro ou nos céus, cria-se uma aliança entre quem pergunta, quem responde e o intérprete.
O tradutor faz uso da máquina analógica.
Tem a obrigação de dominar esta faca.
Quem pergunta, olha para o espelho.

“Nasci com Ascendente no Caranguejo, por isso a minha vida anda para trás”.
“- Anda-se para trás e para baixo para seguir adiante.”
A lógica da correspondência nos tira da farsa da lógica da causa e efeito.
Quebrar o espelho dá sete anos de azar.
A construção do texto analógico vem em ondas, tem ritmo, métrica e dor, segue a marcha da máquina.
Analogia: como se não quisesse nada, aos poucos espraia sentidos para tudo quanto é lado.
A lógica da correspondência une os pontos vitais, formando uma constelação de significados, uma trama de sentidos, ao ponto de extrair uma lasca de luz da lâmina do escuro.
Destino é anagrama da palavra sentido, e vice-versa.

A leitura do texto oracular fabrica um mundo com palavras.
Quando a sorte é recriada, relida, reinventa-se o mundo.
Cura-se o mundo.
A performance oracular é uma co-criação, assim como o Destino precisa do Livre-Arbítrio.
É um ato criativo.
Suavemente criativo.
Terrivelmente criativo.
E aí o tradutor inventa-se como demiurgo.

Demiurgo, fr. démiurge (demiourgon) < lat. demiurgus,i, emprt. ao gr. démiourgós,oû ‘artista, médico, artesão’

Além da analogia, o tradutor lança mão da metáfora, do cinema falado, da ruptura da crença, do verso saturnino e do rito. Ah, e é claro, do senso de humor de Mercúrio. A variação de recursos para atingir o objetivo da função dramática (preparar a pessoa à sorte que se anuncia), dependerá do tipo da pergunta e do sorteio, é claro.

A performance é um rito. Não é preciso valorizar o cenário. Não queira nada, seja apenas suficiente.
O oráculo já é local profano e sagrado.
Se a performance atinge seu objetivo, quem pergunta deixou de ser Lua e se transformou na Fortuna.
A máquina, além de ficar mais suja de graxa, atinge sua sorte de ser ferramenta da Fortuna.
E o intérprete alcança sua ambição, seu destino, sua Fortuna, a de ser apenas o mensageiro.

Depois de ler o oráculo, feche-o como se fecha um túmulo.
Guarde o arco.

Cuidados com o oráculo (ícone de perigo com máquinas)

O tradutor pode se intoxicar com Mercúrio.
Quem pergunta pode não parar de perguntar.
A máquina pode emperrar a roda com os véus da ilusão.

A leitura de oráculos é uma arte da tradução.
Uma arte bandida.
Rouba-se o fogo dos deuses.
Um lance de dados jamais abolirá o acaso.

O próximo passo está na escuta de quem o procura.

 

(texto escrito maio 2013)

Sobre o Autor:

João estuda Astrologia desde o fim dos anos 90. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia Tradicional. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 25 anos de estudos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o céu como narrativa.

Um Comentário

  1. Ana 30/03/2018 em 13:06 - Responder

    Vai levar um tempo e atencao,e tb insights pra digerir tudo isso…! Um presente,uma honra.One love,one heart,one destiny <3

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