Belchior, um violeiro de Marte

Belchior, um violeiro de Marte

By | 2018-03-25T20:56:26+00:00 quarta-feira, 24 maio 2017|Natividades, Prática|0 Comentários

Algo que chama a atenção na obra do Belchior é a reiterada citação à realidade. A preferência do poeta por aquilo que é da esfera da carne e do sangue. Isso porque já é um delírio a experiência com as coisas reais, segundo o poeta.

“Eu não estou interessado em nenhuma teoria”.

A realidade, na astrologia, é algo reiteradamente associada a Saturno, o chamado Grande Maléfico, por este exatamente governar tudo aquilo que nos faz topar com a frágil condição humana. A frágil condição humana que parece viver sempre ao relento, sofrendo as intempéries do tempo. E, de fato, Belchior tem parte com Saturno, como nos lembra o Bruno R. Lima aqui: Incelença para Belchior – “Um simples cantor das coisas do porão”.

Além de Saturno, Marte também responde pela verve do poeta. E, a meu ver, esta é a principal motivação do seu andar na cidade.

Marte, o Pequeno Maléfico, o que irrompe sem pedir licença.

Marte, o que rege o Medo e o Pânico e também todo espírito para vencê-los.

Marte, senhor das lâminas e do dizer cortante.

Belchior tem Ascendente, Sol, Júpiter, Lua, Mercúrio, Fortuna e Marte em Escorpião, signo regido por Marte. Todos estes quadrados a Saturno exilado em Leão, como não poderia deixar de ser.

Saturno na 10 de Marte é como uma bigorna de chumbo sobre a cabeça do guerreiro.

Saturno, regente por exaltação da 12 (Libra) e, por domicílio (Capricórnio), da 3, a da comunicação, que, por sua vez, exalta Marte. Os excluídos da 12 ganham voz pela boca do compositor e o leva ao topo do mundo (Saturno na 10).

O Sol, regente da 10, ascendendo também é relato de ascensão pública.

E o Almutem da Carta, isto é, o daimon, o gênio que conduz seus passos, é Marte. E Marte é quem diz:

“Viver é melhor do que sonhar”.

É de Marte a vida sob o signo da luta e não do sonho.

O sonho, quando surge na obra do poeta, é sob o signo de Marte, isto é, do fazer, do transformar, do parir um novo tempo através das próprias mãos. Aliás, tema sugerido por toda sua obra, a do surgimento de uma nova consciência, de uma nova juventude, mas que, no entanto, sempre parece e aparece velha, decrépita, coisa do passado.

É de Marte encarar a realidade mesmo que amarga seja.

Marte é amargo, assim como a realidade.

Belchior tem Marte em domicílio noturno – é o planeta com mais dignidade essencial.

Os demais planetas em Escorpião estão sob o domínio Marte que também é o Almutem da Casa 1 – dono do corpo e da cabeça do nativo.

Marte é Almutem da Casa 3, a da voz, a dos irmãos e da feira da cidade.

Mas agora já estou ficando redundante assim como Marte é redundante no mapa do nascimento do poeta.

Belchior é de Marte, um violeiro de feira urbana, um caipira da estrada de ferro, um filósofo da bigorna da real.

E vale lembrar que Marte, por seu temperamento colérico, jamais recebe ou receberá ordens de outrem, de alguém que sugira como deva viver, o que fazer, como sentir, como ser.

Os tiranos do mundo detestam desobediência. Mas Marte não desobedece alguém, apenas segue o seu caminho.

Belchior morre no dia 29 de abril de 2017 em Santa Cruz – RS, onde se exilou voluntariamente. Sol e Marte estão conjuntos em progressão secundária à Vega, a alfa da Lira, estrela que tem o destino de vencer as intempéries do tempo através do canto.

Sobre o Autor:

João, 45, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 26 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o céu como narrativa.

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