Cinema-Céu #12 – Estou me guardando para quando o Carnaval chegar

Cinema-Céu #12 – Estou me guardando para quando o Carnaval chegar

By | 2020-06-26T22:22:52-03:00 segunda-feira, 21 out 2019|Cinema Céu, Outras Saturnálias|0 Comentários
As segundas, apesar de serem dias da Lua, costumam ser maçantes, mas pelo menos temos o Cinema-Céu para aliviar os pesos e podermos falar de cinema.

Nesta sessão, falaremos, pela primeira vez, de um documentário! Afinal, o céu nos relata histórias de todas as naturezas, fins, origens e abordagens – inclusive a documental. Assisti ao filme “Estou me guardando para quando o Carnaval chegar”, filme de 2019 dirigido por Marcelo Gomes. A sessão que fiz ocorreu no dia 19/10/2019 às 18h18 em Belo Horizonte. Como não foi possível descobrir o dia da estreia mundial do documentário, seguirei com a leitura do céu do dia em que o assisti.

Mapa da sessão na qual assisti ao filme: 19/10/2019, às 18h18, em Belo Horizonte/MG.


O documentário mostra a vida da cidade de Toritama, no interior do Pernambuco. A cidade, que contém 40.000 habitantes, é responsável por 20% de toda a produção nacional de jeans. Acompanhamos conversas, falas e entrevistas com várias pessoas desta cidade, suas rotinas e visões sobre o trabalho que exercem.

O Ascendente do filme é Touro – o signo do descanso, do feriado, do banho pós-trabalho. E, curiosamente, não falaremos aqui de folga. Vênus, que versa sobre Touro, está exilada, em Escorpião. Escorpião ama Marte, onde amor e dor podem se confundir – descanso e excesso de trabalho se confundem aqui. “O único momento em que a cidade fica em silêncio é na hora do almoço”.

Esta Vênus também é o diretor, que atua como participante dentro da própria narrativa deste filme, a partir de aparições, conversas e sua narrativa em voz-off. Diretor que está na casa 7, oposta ao Ascendente. Enquanto o Ascendente é o eu, a casa 7 é o outro. E esta é a casa do documentarista, dos diretores que constroem suas histórias a partir da performance do outro.

O filme inicia com a busca do diretor em seu passado: seu pai, um oficial do governo, fazia várias viagens pelo interior do Pernambuco, e um lugar que ambos passaram era Toritama. Marcelo retorna a esta cidade para encontrá-la tomada pelas indústrias, destoando daquilo que havia permanecido em sua memória. Touro coloca a Lua no trono – esta, em Câncer, está na casa 3, bem localizada e domiciliada. A casa 3 fala dos deslocamentos “por terra”, “a trabalho”, e o diretor realiza esta viagem ao interior do estado para fazer o trabalho de documentarista. Estando em Câncer, é um deslocamento que envolve passado e a própria memória. “Em Toritama, tudo muda, menos a chuva após o Carnaval”.

A Lua, o diretor, caminha para encontrar Marte. Marte, este, que falará do tema central da obra: o trabalho. Ouvimos, ao longo de todo o filme, sons de máquinas sendo operadas (elemento estético que é constantemente e conscientemente trabalhado) – sons estes que são música para Marte, o ferreiro, o operário das indústrias. Marte está em detrimento, em Libra, como disse anteriormente, e o trabalho é precário. Libra que ama Vênus, também em detrimento. Mais trabalho precário.

Marte no qual exalta Capricórnio, aquele que está na casa 9, dos sonhos – o trabalho exalta os sonhos. Os sonhos dos personagens estão intimamente ligados a “ter dinheiro”, “abrir seus próprios negócios” e “construir uma família”. Sonhos com trabalho e rotina. A casa 9, por outro lado, também é a casa das viagens a lazer, e o trabalho exalta esta viagem prazerosa – o Carnaval. Uma cidade que trabalha incansavelmente para se preparar para aqueles dias de descanso na praia.

Temos Saturno, que sabe esperar como ninguém, na casa das viagens a lazer. “Estou me guardando para quando o Carnaval chegar”.

Retomemos à casa 6, do trabalho braçal e diário. O filme circula na temática da opressão trabalhista, da falta de amparos em direitos – novamente o detrimento do regente da casa. Acompanhamos aquela rotina e a exaltação do trabalho (es)forçado – o regente por exaltação está domiciliado. Colocar as coisas em um pedestal é sempre um risco, e a visão exaltada do trabalhador autônomo esconde a precariedade da segurança da aposentadoria.

Não há de esquecer que temos, na casa do trabalho, um Sol machucado, em Libra. E aquela população nem escapa do trabalho aos domingos (dias do Sol), onde precisam “fazer a feira”, atender revendedores e turistas que se dirigem à cidade para comprar o jeans fabricado lá.

Tem um personagem curioso no filme que descreve um Mercúrio em Escorpião. “O bom da vida é a lei do silêncio. […] Quem muito fala, tudo erra. O bom da vida é estar sempre calado”. Escorpião entende de silêncios, cada palavra tem a força e o impacto de seu veneno. Mercúrio tão afiado quanto as agulhas das máquinas de costura de Toritama.

Júpiter, domiciliado, está em casa oculta ao Ascendente, mas vê a Fortuna diretamente e de forma bastante amigável. Júpiter na casa da morte. Júpiter da alegria e do otimismo. “A vida não é ruim. Só é ruim para quem morre”.

A Fortuna é a “mudança no percurso do filme” que nos leva para seu fim. Ela avista Júpiter na casa 5 sob sua perspectiva, e toda a cidade entra em frenesi para poderem viabilizar seus descansos no Carnaval.

E, da Fortuna, chegamos à casa 4, o fim do filme. Ela nos traz de volta à mesma casa 6, o filme se encerra com o retorno ao trabalho. Após o brilho nos olhares ao receberem o merecido descanso, a volta à rotina. Trabalhar é preciso, para que se possa aproveitar aqueles dias dourados novamente. E o filme mostra o retorno da chuva e os escritos: “365 dias para o carnaval”.

Aqui quem fala é a Analu Bambirra, e agradeço mais uma vez a presença de todos em acompanhar mais um filme da grande e rica produção brasileira. O filme, inclusive, se encontra disponível na Netflix. Agradeço, também, à Saturnália por proporcionar tantos aprendizados e oportunidades. Até semana que vem! 

Sobre o Autor:

Analu Bambirra, 25, nasceu em Belo Horizonte (MG). Graduada em Cinema e Audiovisual (Una). É estudante de Astrologia desde 2018 (Saturnália). Produtora de curtas e longas-metragens desde 2014. Escreve em sua página Corona Astrologia (@coronaastrologia) sobre Astrologia e Cinema. Colabora com a coluna "Cinema-Céu" na página da Saturnália. Vive em sua cidade natal.

Deixar Um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.