Cinema-Céu #14 – As Boas Maneiras

Cinema-Céu #14 – As Boas Maneiras

By | 2020-06-26T22:12:10-03:00 segunda-feira, 04 nov 2019|Cinema Céu, Outras Saturnálias|0 Comentários
Dado ao humor da lunação em Escorpião, junto da celebração do Halloween, chegamos ao Cinema-Céu de hoje com o filme As Boas Maneiras, um dos grandes filmes de terror do cinema brasileiro contemporâneo.

O filme teve sua estreia no Festival de Locarno em 2017, e sigo a sessão olhando para esse mapa. (Fonte)

Mapa de estreia do filme: 06/08/2017, às 16h30, em Locarno/Suíça.

O terror, sob o ponto de vista astrológico, é representado por Saturno (como Guilherme de Carli, do Nodo Norte – Astrologia, nos lembrou semana passada). Saturno se alegra na casa 12, a casa dos demônios, monstros e fantasmas, a casa do que não vemos, e que nos causa a loucura e o pânico. E é justamente ele que se levanta junto do filme. Temos um Ascendente em Sagitário, com Saturno ali. Realmente, uma história de terror.

Sagitário é um signo de cólera, de mutabilidade, metade animal, metade gente. O terror deste filme reside na figura humana que se transforma em uma fera, um lobisomem.

Temos Saturno no Ascendente, cujo regente é Júpiter em sua alegria/júbilo. Júpiter na exaltação de Saturno, Saturno em signo de Júpiter. Temos aqui um acordo e uma empatia muito forte entre as personagens principais.

Júpiter em Libra é Clara, mulher misteriosa quanto às suas origens mas que necessita urgentemente de um emprego. Misteriosa, mas ainda um Júpiter: quando pode, exercita sua boemia. E ainda em Libra: ao longo do filme, sua regência venusiana cresce. Ana é o Saturno Ascendente. Solitária, como um bom Saturno, assim como filha de donos de terra (também como um Saturno). Mas também festiva, gosta de um bom sertanejo universitário e ama seu cavalo, como um bom Sagitário.

Clara é contratada por Ana, que mora na área nobre de São Paulo, para cuidar da casa e do seu futuro filho. Clara começa o filme na casa 11, a casa dos “presentes dos céus” – um emprego para poder enfim quitar suas dívidas de aluguel com Dona Amélia. Mas não nos empolguemos: o presente dos céus leva Clara para a casa 8, a casa da Morte e do que é impossível desver.

O filme começa com este acordo social: a patroa e a contratada. É a Vênus em Câncer que quebra as “boas maneiras”: a aparente empatia se transforma em um relacionamento entre Ana e Clara. É quando o afeto surge que a casa 8 se manifesta, a morte é vista na casa ao lado.

A Lua, no mapa, está em Aquário, caminhando para uma Lua Cheia. Filme sobre lobisomens sob a Lua Cheia. Lua em Aquário, signo que nega o “eu”, oposta ao Sol em Leão, o “eu” com letras maiúsculas. Quando Ana se transforma em lobisomem, o Eu é adormecido assim que ela sente a Lua. Toda a transformação se torna em um vago sonho (Lua que fala do mundo onírico e Sol na Casa dos Sonhos). E, se não tiver acontecido fora de casa, a Lua (que falará das mortes e dos acidentes) causará muitos distúrbios nas ruas e nas vias públicas (lugares de casa 3).

Sol-Eu queima Marte, aquele que falará também deste monstro oculto que habita aqueles corpos. Al Biruni, astrólogo persa do século XI, associa Marte às feras destrutivas ou selvagens. Marte rege a 12, a mesma casa onde Saturno se alegra e nos causa pânico.

A Parte da Fortuna é aquele gancho que nos colocará de volta ao propósito do filme. É um cálculo matemático feito levando em consideração as localizações do Sol e da Lua no mapa em questão. E é muito interessante que este eixo Sol-Lua, que neste filme fala do horror do mundo noturno que nos habita e que não estamos cientes, gera o cálculo da Parte da Fortuna para os graus 25 de Touro, onde está Algol. Algol, Medusa: olhar para a Medusa é assustador. Encarar o lobisomem não paralisa e causa tanto choque que chega à beira do trauma? Uma vez que se olha para a Medusa, não tem como deletar aquela visão. Olhar o que há por debaixo das camadas sociais, por dentro das casas nas madrugadas adentro, é traumático. Tanto que, quando a verdade vem à tona, os vizinhos marcham em direção à casa de Clara com bastões para linchar aquele ser, abominando aquela monstruosidade. Inquisição ao estilo Algol, um ser que representa todo o mal, a sede de justiça com as próprias mãos.

Clara viu o horror de Ana. Clara regrou seu filho pois sabia do horror que o habitava. Ela encarou ambos. E perceber a necessidade de abraçá-lo foi o que a moveu a enfrentar o mundo. O terror do outro é difícil, mas os terrores ao nosso lado e dentro de nós são os mais assustadores. O terror da normalidade ser batida. O terror da vida não seguir nos moldes e na aparência que ela “precisa” ter.

Espero que tenham gostado de mais uma sessão do Cinema-Céu. Meu nome é Analu Bambirra, obrigada por nos acompanharem!

⚠️ Alerta de Spoiler:
A Fortuna nos lembra do propósito do filme. Ela está em Algol, a estrela da decapitação. Clara, tomada pelo horror do nascimento do filho de Ana (uma cena fortíssima), é forçada a encarar a criatura, uma vez que ela se contorce de sofrimento pois o cordão umbilical está a enforcando. E, assim, uma empatia é criada (regente Vênus) e esta será a conexão que nos ligará à segunda parte do filme.

Sobre o Autor:

Analu Bambirra, 25, nasceu em Belo Horizonte (MG). Graduada em Cinema e Audiovisual (Una). É estudante de Astrologia desde 2018 (Saturnália). Produtora de curtas e longas-metragens desde 2014. Escreve em sua página Corona Astrologia (@coronaastrologia) sobre Astrologia e Cinema. Colabora com a coluna "Cinema-Céu" na página da Saturnália. Vive em sua cidade natal.

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