Cinema-Céu #16 – Parasita

Cinema-Céu #16 – Parasita

By | 2020-06-26T21:59:37-03:00 quinta-feira, 20 fev 2020|Cinema Céu, Outras Saturnálias|0 Comentários
Cinema-Céu está de volta! Espero que tenham sentido saudade assim como nós sentimos falta de escrever para a Saturnália. Sigo grata à Rafaella Callegari e ao João Acuio pelo projeto e pelo convite de continuar colaborando. Com a alegria de começar em grande estilo, vamos falar sobre o filme mais comentado atualmente: Parasita!

AH este artigo contém Spoilers!

Mapa da sessão de estreia no Festival de Cannes: 21/05/2019, às 22hs, em Cannes, França.

O que está na linha do horizonte e seu ascendente nos ajuda a identificar o tema, a linha narrativa, o “corpo” do filme. Aqui Sagitário, signo da ferida incurável, junto da Justiça, Júpiter: um filme sobre as mazelas e consequências incuráveis do capitalismo e da desigualdade social. Júpiter que também fala do porão: a casa 4, Peixes, tem seu regente Júpiter. Começamos o filme vendo uma habitação localizada no porão de um prédio, uma família pobre à procura de um trabalho. A linha do horizonte aqui se torna a linha do asfalto.

A família Kim observa a disparidade social: mesmo carregando o otimismo sagitariano, a Lua seca seus recursos, e ter o mínimo é pedir demais. Enquanto os patrões têm banquetes sobre a mesa e bolos de dinheiro, para eles sobra a contenção e a amargura da pobreza.

O filme traz uma sensação corrosiva, a gente rói o osso assistindo a dureza da realidade. A sensação e o tom do filme são trazidos pela Lua. Lua em Capricórnio. Filme digno de humor saturnino. O próprio diretor define o filme como uma comédia. É rindo de nervoso que a gente reconhece o fundo do poço que a gente vive.

A Lua em Capricórnio, Ki-woo (o irmão), recebe a Vênus em Touro, e com isso ganha uma bênção: seu amigo Min (o universitário) é professor de inglês de uma família rica, e, por precisar se ausentar do trabalho, oferece indicá-lo para substituí-lo.

Assim começa a força da cabra morro acima: a Fortuna está na máscara de ser funcionário da família Park. Fortuna na casa 6, a dos subalternos, a dos trabalhadores. Uma vez com o acesso à casa dos ricos, Ki-woo busca formas de sua família também trabalhar ali. A patroa precisa de uma boa professora de artes? Ele sabe quem indicar! Sua irmã Ki-jung se torna Jessica, prima de um colega de faculdade que nasceu em Chicago.

A Fortuna também está conjunta à estrela fixa Hamal, de natureza de Marte, a estrela Alfa da constelação de Áries, a cabeça do Carneiro. É pela cabeça que o Carneiro age e ataca. E não é aqui que a gente vai ter dó de gente rica. Fala qual é o objetivo que a gente sai atirando. Júpiter está conjunto à estrela fixa Ras Alhague, a cabeça do Serpentário, que fala de envenenamentos, e é a partir de um envenenamento com pêssegos que a mãe de Ki-woo consegue um emprego na casa.

A família Park aceita os novos funcionários de braços tão abertos, é a ingenuidade de quem acabou de sentar no trono do Sol. Dignificados e purificados, mas agora cegos pela luz, parecem quatro crianças mimadas. Mercúrio, regente dos patrões, só vê e está combusto pelo Sol, mais ninguém.

Já a família Kim, com suas máscaras e festividades cavalares, vê todo o mapa: antíscia (conjunção oculta) com Júpiter, trígono com a Vênus e a Fortuna, oposição à Marte, e caminha para a conjunção com Saturno. Pros ricos, tudo lindo e brilhante. Pros pobres, confusão e brigas entre si. Essa oposição Lua-Marte poderia ser a batalha dos humilhados: a família Kim lutando com a família da ex-governanta para que não percam suas regalias. Como sempre, os exaltados vivem em suas bolhas e nunca sofrem.

Mercúrio não vê ninguém, e reclama como se fosse super banal do cheiro de Ki-taek, o pai da família Kim. Ai Hamal. Não deveria ter escutado isso.

E é nessa oposição Lua/Marte que temos uma das cenas mais fortes: o caminho de volta para casa embaixo de chuva, literalmente ladeira abaixo, a violência das águas caminhando para a parte mais baixa da cidade, atingindo sua queda e destruindo casas.

Como Mercúrio não vê nada disso, no dia seguinte ele exclama: “a chuva ontem foi uma bênção!”. Ai Hamal. Não deveria ter escutado isso.

Ai Hamal porque o regente da casa 4, do fim do filme, é a Vênus conjunta a Hamal – a Fortuna também. A Parte da Fortuna é o que a gente chama de plot-twist, o ponto de virada da narrativa. O carneiro vai dar cabeçada em algum momento. Áries não é de se ter paciência nem de levar desaforo para casa. Rindo de nervoso porque uma hora a bomba vai explodir.

E ela explode. A Lua em Capricórnio alcança Saturno conjunto ao Nodo Sul. O porão emerge, todos são descobertos de suas farsas. Quando Dong-ik (o pai da família rica) não demonstra um pingo de empatia pelos empregados ensanguentados, Ki-taek (o pai da família Kim) se torna o carneiro. Vai Hamal. Esfaqueia o cara. Te disse que por aqui a gente não tem dó de burguês.

E a Lua chegar a Saturno nos leva ao fim do filme: a Lua chega ao cárcere. Ki-taek viverá, sabe-se lá por quanto tempo, preso no porão da casa. Se não for lá, será preso na prisão convencional. A família Kim presa em sua condição social. Os humilhados continuam sonhando com a exaltação. Com a liberdade. A gente sai do filme sentindo a frieza da realidade saturnina gelando até o joelho por sabermos que estamos presos a essa hierarquia social. Até quando?

Aqui é a Analu Bambirra, agradeço a leitura, e vamos conversando nessa nova temporada do Cinema-Céu!

Sobre o Autor:

Analu Bambirra, 25, nasceu em Belo Horizonte (MG). Graduada em Cinema e Audiovisual (Una). É estudante de Astrologia desde 2018 (Saturnália). Produtora de curtas e longas-metragens desde 2014. Escreve em sua página Corona Astrologia (@coronaastrologia) sobre Astrologia e Cinema. Colabora com a coluna "Cinema-Céu" na página da Saturnália. Vive em sua cidade natal.

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