Cinema-Céu #18 – Histórias que só existem quando lembradas

Cinema-Céu #18 – Histórias que só existem quando lembradas

By | 2020-06-26T21:45:14-03:00 quinta-feira, 19 mar 2020|Cinema Céu, Outras Saturnálias|0 Comentários

O céu está respirando melancolia: “A Morte caminhando pelo mundo”, João Acuio escreveu essa semana. O Cinema-Céu acompanha o temperamento do céu, pois, assim como vamos à sala de cinema ou à página inicial da Netflix, vemos o que está em cartaz e é isso o que temos pro rolê. Se temos quatro planetas em Capricórnio, num céu extremamente ressecado, é o que temos pra nossa sessão.

Lembrando que, como a Rafaella Callegari sempre diz, a Lua recebe tudo que ela aspecta, assim como nós reagimos afetivamente a todo e qualquer conteúdo cinematográfico que temos contato. E a sessão hoje me doeu os ossos de tão saturnina que foi: “Histórias que só existem quando lembradas”, filme de 2011 dirigido por Júlia Murat. Um pouco sobre o filme: um vilarejo “perdido no tempo”, cuja população é composta unicamente por pessoas idosas, e cujo cemitério se encontra fechado, vê a sua rotina alterada quando uma jovem fotógrafa se hospeda por um tempo ali e faz registros fotográficos.

O tema que percorre o filme é a negação do tempo e da Morte. Na igreja do vilarejo, há uma lista de todos que faleceram na cidade. No entanto, a população parou de contabilizar na década de 1970, para que, assim, se esqueçam de morrer. Um lugar que apenas dezenas de pessoas a habitam, e vivem em conjunto: rezam junto, almoçam junto, em uma rotina fiel e rígida.

Então é um filme que exalta o tempo e as pessoas mais velhas. Em bom e velho astrologuês, é Saturno quem chama. E o Ascendente da nossa sessão é Libra, o signo que justamente exalta o Tempo e a melancolia da vida. Leve como um chumbo. Com um Ascendente que exalta o peso e a Lua em Capricórnio, o tempo arrastado do filme, aquela rotina fora do nosso tempo, planos de personagem chegando calmamente e abrindo todas as janelas. Confesso que precisei pausar algumas vezes para respirar. O Tempo a Saturno pertence, e cabe a nós ajustarmos a ele.


Mapa da sessão na qual assisti ao filme: 18/03/2020, às 19hs, em Belo Horizonte/MG.


O tema do filme é anunciado pelos seus regentes: Vênus e Saturno. A obsessão pela morte e a rigidez do cemitério. As casas 8 e 4 versam sobre a Morte e os fins. A casa 4 é tudo o que se encontra debaixo da terra – logo, cemitérios. Saturno também tem parte com o Tempo e a Morte, a esfera mais distante entre os planetas. Bom, “tempo” e “morte” tá na pauta do dia.

Acompanhamos Dona Madalena, uma senhora que prepara pão toda noite para levar ao armazém de Antônio. Dona Madalena é viúva de Guilherme, quem amou e ainda carrega muito amor, inclusive nutrindo a partir de escrita diária de cartas para ele, e levando flores para a porta do cemitério – porque, como disse, ele está fechado. Dona Madalena é Saturno em seu ápice de dificuldade de encarar o peso da idade. Seu espelho está tampado por um pano (Capricórnio não vê ninguém). Ela escreve: “Meu amor, quero manter sempre viva a memória para que o nosso amor, no futuro, não sinta o passar dos anos”. Capricórnio seca a Lua – uma Lua minguante, rochosa, em seu detrimento. A Lua é a memória. A preocupação é como manter a memória da vida, da juventude, em um signo que dá casa à Morte. E, se tratando de Saturno, Dona Madalena luta para que seu amor resista ao tempo. O Lote de Eros da sessão estava disposta justamente por este Saturno.

Dona Madalena é surpreendida com a presença de Rita, uma jovem em viagem, que deseja passar alguns dias naquele vilarejo. O vão geracional de idades é evidenciado. Rita se encontra exilada naquela vila, não é dali. Apesar de, com o tempo, se aproximar daquelas pessoas mais velhas, todos sentem desconfiança e repulsa daquela figura mais nova. A Lua está fora de casa. Saturno, em sua mitologia, se apega ao seu status de poder e nega olhar para a realidade. Aqui, Dona Madalena e os demais se incomodam com Rita por ela os lembrar que um dia foram jovens, e que o tempo passa e a Morte é iminente. Se vêem obrigados a se abrirem, a contar de suas vidas, seus segredos que carregam e machucam.

Rita é fotógrafa, e ela faz registros em câmera analógica e digital. A princípio, ela foca em objetos inanimados (novamente: Capricórnio não vê ninguém), mas depois, se aproximando de Saturno, vislumbra o poder do passado, das marcas, das rugas e da experiência, assim como enfrenta a secura dos olhares de julgamento dos mais velhos.

E o cemitério se encontra fechado. “Mas quem o fechou?” “Foi Deus!”. Fechado a cadeado, objeto de Marte. O portão do cemitério é o Portão de Hades, partimos dali para outro plano de existência, encara a Morte (casa 8) de frente. O Portão de Hades, em astrologuês, é a Casa 2, aqui regida justamente por Marte muito fortalecido. Um cadeado antigo e enorme protege a entrada do cemitério. Durante o filme todo pensamos que quem detém a chave é o Padre, um Júpiter cuja fé é seca como a Cabra: “que não enriqueça nem empobreça, dai-me o pão que me é necessário”, ele fala diariamente em suas missas. Marte se aplica a Júpiter, e, por isso, a ideia é achar que é o Padre quem fechou o cemitério e não quer abri-lo. No entanto, no fim do filme, descobrimos que quem detém a chave é a própria Dona Madalena – Saturno, regente do Marte em Capricórnio, regente do cadeado.

Encarando a juventude, Dona Madalena abre o seu passado, expõe a sua pele para as lentes de Rita. É difícil para Saturno encarar a fragilidade, especialmente em Capricórnio, onde, como disse, machuca a Lua, que governa o corpo e as emoções. A exposição à luz permite com que Dona Madalena acesse seus desejos e tome as rédeas do fim da sua vida. Ela falece e deixa sua casa e o ofício do pão para Rita.

Vindo de uma Lua seca, temos na trilha sonora do filme: “quando morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela com o nome dela”. Não há lágrimas na Lua em Capricórnio. Não há tempo de chorar pelo tempo perdido ou pelo tempo que resta. O filme relembra a necessidade de parar e buscar a chave para encarar Saturno de frente, afinal “pão é como gente, se não respira endurece”.

Por fim, cabe ressaltar que a fotografia e o cinema requer Lua e Saturno. Lua pois é o planeta que absorve e translada luz, é o planeta das platéias e das massas, é maleável e sem fronteiras (e em um filme bom as nossas histórias se misturam com as do filme). Saturno pois eterniza um momento. A lente absorve a luz e registra o tempo com um estilete, uma foice. Fotografamos para que não esqueçamos. Para recorrer à memória lunar e para recorrer a um passado saturnino. Lua conjunta a Saturno neste mapa, e aprendi essa lição maravilhosa.

Meu nome é Analu Bambirra, e esse foi o Cinema-Céu de hoje, guiado e orientado pela Rafaella Callegari, que tanto me ensina!

Assista ao filme no Youtube.

Sobre o Autor:

Analu Bambirra, 25, nasceu em Belo Horizonte (MG). Graduada em Cinema e Audiovisual (Una). É estudante de Astrologia desde 2018 (Saturnália). Produtora de curtas e longas-metragens desde 2014. Escreve em sua página Corona Astrologia (@coronaastrologia) sobre Astrologia e Cinema. Colabora com a coluna "Cinema-Céu" na página da Saturnália. Vive em sua cidade natal.

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