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O Oráculo como uma situação dramática

By | 2019-06-17T13:11:33-03:00 segunda-feira, 17 jun 2019|Natividades, Prática, Teoria|1 Comentário

O Oráculo, seja ele qual for, compõe uma determinada situação dramática: a consulta a um dos grandes mistérios da vida, o Destino. Morte, Sonho, Desejo, Desespero, Destruição e Delírio são os irmãos mais novos do Destino. E, como qualquer cena dramática, há atores, ação, cenário e texto. Os atores são três: quem pergunta, quem responde e, entre eles, o instrumento, a mídia, o oráculo propriamente dito. A ferramenta, aqui, tem status de ator. O Destino é um ator invisível. E aí temos a cena dramática que atravessa os tempos: um ser-questionário diante do oráculo-enigma e seu decifrador. “Não há nada de novo sob o Sol”. O ser atormentado pela dúvida adentra o tempo de Mercúrio, bota a mão na estátua do Deus Mensageiro e faz uma pergunta. Ao sair do templo, ao alcançar a rua, o mercado, a primeira frase que escuta, é a resposta à sua angústia. Vox populi, vox dei. O ser-questionário percorre uma vida. Atravessa rios, riachos, correntezas, enfrenta o frio, a raiva, o terror, sobe montanhas, desce vales, sente fome, até que chega a Delfos, para consultar o oráculo do Sol. A Serpente do mundo habita o chão do Templo. “Conhece-te a ti mesmo. Nada em excesso.” estão grafadas no rol de entrada. Quando é chamado, sua pergunta é respondida com outro enigma: “Quem de dia, engatinha, de tarde anda com duas pernas e de noite, com três?”. Delfos vestido de Esfinge. No fim de tarde, do último dia de mês do cachorro louco, um homem senta diante de uma Mãe de Santo. Não fala nada, mas é possível escutar a sua hesitação e lamúria, a sua coragem e também o seu desatino (“O que estou fazendo aqui, o quê?”). Os búzios caem e movimentam o mundo. Freud, ao inventar a psicanálise, substitui o discurso do Oráculo pela a escuta do discurso do id. A lógica do tropeço (chiste, atos falhos, equívocos) será privilegiada, assim como o discurso onírico. O inconsciente é o tabuleiro do seu jogo. Nesta primeira cena dramática, quem pergunta > oráculo < quem responde, temos, de modo grosseiro, o seguinte esquema: LUA (porque a Lua sofre) diante de MERCÚRIO (porque é o Mensageiro) + MARTE, a ferramenta, como mediadora da conversa (Marte porque é o deus ferreiro, o dono das ferramentas). Poderia substituir a Lua pela a imagem da Terra. Terra > Marte < Mercúrio. A ferramenta, o instrumento, pode ter o domínio e funcionar sob a égide de um deus em particular. Algo assim: o Oráculo de Delfos é de Apolo, a Vox Populi de Mercúrio, o Opelê de Orunmilá, o Tarot da Lua e/ou de Vênus, o inconsciente de Freud e o mapa astral seria de Saturno, o Senhor do Tempo. Os oráculos, todos, estão sob a égide do Destino, esse mistério. A ferramenta é o instrumento do Destino, o meio, a mídia que os deuses se comunicam. Em síntese, a cena dramática oracular estrutura-se assim: Pergunta > Oráculo (Destino) < Resposta = Lua > Marte (Destino) < Mercúrio. Desconheça-te a ti mesmo. Quem pergunta pode ser opor completamente a este quarto elemento, ao espírito da mídia. A pessoa tem o direito de ir contra o Destino, este ator invisível. Equivale se opor a Marte. O próprio “Mercúrio” pode se opor a quem pergunta, aos olhos de quem pergunta. Mercúrio jamais é oponente de quem o procura, Mercúrio é apenas o mensageiro. Com Destino quero apenas dizer que há em qualquer pessoa, em seu subterrâneo, a seguinte pergunta ecoando: “Estou me tornando a pessoa que sou? As minhas escolhas me levam ao meu destino?” Esta cena dramática também é constituída entre o astrólogo e quem o procura, é claro. E, por isso, o mapa astral é um oráculo tanto quanto o Tarot e o I Ching, por exemplo. A diferença é que a Astrologia pode falar sobre a biografia inteira de uma pessoa, montar cada cena dramática da vida representada pelas casas astrológicas, traçar o percurso que o nativo irá trilhar, o eixo da narrativa, quanto tempo de vida terá, se terá herdeiros, casamento, honra e glórias, etc. Falar sobre o amor, a vida e a morte, ordenar a narrativa, revelar a trama. O Mapa Astral é o bordado feito por Cloto (a que prepara o tipo de tecido da vida a encarnar), Láquesis (a que distribui a sorte e torce o fio, para dar àquela vida uma determinada particularidade) e Átropos (a que corta o fio, determinando o tempo de vida). Hoje em dia, são poucos os que se atrevem a determinar tempo de vida através do mapa astral. Mas este era um procedimento comum à astrologia antiga. A morte era vista também como um destino. Se a pergunta feita ao Tarot, ao Opelê, ao I Ching carrega a pessoa frente ao tradutor, o mapa natal guarda a pergunta feita àquela pessoa. A pessoa, a sua biografia, é a resposta viva dada à pergunta feita pelo mapa. E é claro que nem é preciso dizer que a tirania pode querer tomar a voz do Destino. Ou, ainda, se arvorar como pretensamente científica (seja lá o que Ciência signifique nesta altura do campeonato da história do mundo). A Astrologia mantém o seu vigor, seu visco libertário, literário, porque ainda tem o Tarot e todos os oráculos (I Ching, Andaluz, dados, tampinha de garrafa, etc), assim como a magia, o happening, a arte, a fenomenologia e a psicanálise (sim, aquela invenção do Freud), como seus fiéis amigos e confidentes, por serem estes todos amantes do mistério, da loucura e da ideia de fazer destino, co-criar, mesmo quando não há sentido algum, coisa alguma, pergunta nenhuma a fazer à tragédia da existência. O Deus destino está enterrado no chão da Astrologia e é Ele que a sustenta e dá frutos. É, em primeira e última análise, o que está entre a pergunta, o oráculo e a o tradutor. (O Destino é uma árvore). Ou, ainda, qual estrada a percorrer e de que maneira. (Essa árvore tem nome, chama-se Tempo). O elo inconsciente de que o tradutor do mapa é mensageiro do Destino é o que garante a eficácia simbólica do seu discurso. O tradutor é o xamã, em outras palavras. E, como xamã, tem poder de curar, transformar, organizar o caos aparente. O que importa, em última análise, é a ação da cena dramática. E assim, voltamos à cena original: sofredor > oráculo < xamã + (Destino) que, a esta altura, ganha status de Ordenação. Se, por um lado, a Astrologia guarda inúmeros mistérios, por outro, é menos ritualístico do que o Tarot, o Opelê, o Andaluz, que, devido aos seus tabuleiros e materiais, preparam a situação dramática como se fosse um rito. E o rito organiza milagres. Em outras palavras, o cenário facilita a ação dramática. Mas se o cenário e o figurino são imprescindíveis, neste ofício ninguém prescinde do uso da palavra, isto é, do Verbo, outro mistério tão forte como a Vida, o Amor, a Morte e o Destino. O Verbo é o irmão caçula do Desejo. E a palavra de um xamã, o seu hálito, tem o poder de narrar acontecimentos, ressignificar passos, vencer a morte e recriar o mundo. A ação da cena dramática oracular é uma espécie de performance. E para isso é preciso ler o texto. Ser fiel ao texto. Para produzir um texto verossimilhante. Em ambas as situações, xamã ou tradutor, é preciso dominar a linguagem astrológica, o céu da boca. Texto > Signos. Ação > Planetas. Cenário > Casas. Estrutura narrativa > Estrelas Fixas. Tempo dramático > Direções/Profecções/Revoluções/Trânsitos. Enfim, toda a Dramaturgia Celeste.

Sobre o Autor:

João, 45, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 26 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o céu como narrativa.

Um Comentário

  1. Carmen Lopes 20/06/2019 em 18:56 - Responder

    Magnífico e repleto de mistério!
    Um texto assim dá um nó na cabeça da gente.
    ACUIO, minha imensa admiração por sua escrita genial.

    Parabéns SATURNALIA.

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