Algumas considerações sobre astrologia, oráculo e função dramática

Atualizado: 21 de abr.



Oráculo é todo e qualquer jogo, aberto sob o signo do acaso, que se estrutura e fala segundo gramática própria e versa sobre a sorte e suas vicissitudes. Toda consulta a um oráculo produz um lance de dados. O oráculo é estrutura narrativa, produz trama de significados. Ao se abrir o oráculo, o curso da narrativa começa o seu percurso. Não há acaso para a gramática, muito menos para a narrativa ou enredo. O acaso está contido no coração do texto. O oráculo não existe, é preciso criá-lo. O oráculo só existe se alguém consultá-lo. O primeiro passo está no corpo da voz de quem o busca. Não é prudente oferecer a leitura da sorte como o vendedor que grita suas ofertas nos corredores do mercado. Baralho, runas, estrelas – o material do jogo pouco importa, o que interessa é a narrativa fruto do lance de dados. A sorte tem rumo, mas o oráculo é uma volta ao centro do mundo. O oráculo é o umbigo do mundo. E o umbigo é a marca entre mundos. O oráculo nos une aos que foram e aos que virão. O oráculo é um buraco. O oráculo é um arco. Quem busca o oráculo o faz na ambição de dar pernas ao Destino, este ator invisível. “- Quem me tornarei no fim da vida?” “- Quem estou me tornando a cada passo?” “- Estou me tornando quem eu sou?” Oráculo é cavalo da sorte, televisão do mundo, mordida na maçã anciã. O texto oracular versa sobre o futuro, o presente e o passado, mas o tempo do oráculo é agora e atemporal. Temporal. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Não há verdade, o que há são narrativas. “Roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros.” (Oswald de Andrade) Ler um oráculo equivale a fabricar um mundo: cinema falado. – é um ato poético. poiésis: fabricar mundos com palavras. É um ato terrível. É um ato primordial. poiésis: “um produzir que dá forma, um fabricar que engendra, uma criação que organiza, ordena e instaura uma realidade nova, um ser.” (Benedito Nunes) A voz do oráculo fala uma língua ritual. O hálito do verbo une os átomos. O oráculo compõe uma cena dramática tão antiga quanto o signo. “Como vencer a morte e o mistério com o auxílio de algumas fórmulas gramaticais?” (Oswald de Andrade) O tradutor faz uso da palavra. Quem pergunta faz uso da palavra. Dentro da boca há um céu. A representação é e não é o mundo.



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Poeta, Astrólogo e Saturno, creio, são sinônimos. Poesia é a medula de Saturno. Ou melhor: o visco da medula de Saturno, o musgo. O musgo do tempo. Cada mapa tem uma voz interior, assim como um bom poema e o espírito de cada dia. Traduzir um mapa é escrevê-lo, cravá-lo nas costas do Tempo. E, para traduzir, é preciso fazer escolhas narrativas que a própria estrutura oracular propõe. Saturno é Mercúrio. Mas quem prepara o objeto-poema-celeste é o poeta-astrólogo-adivinho. E é de sua responsabilidade a feitura do texto.

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Os atores:

Quem pergunta, quem responde, quem traduz.

Quem pergunta é da Lua. A ferramenta que delimita a resposta é de Marte. Quem traduz é Mercúrio.



Lua

Quem pergunta sofre de dúvida – é a razão da existência do oráculo. Tem tatuado nas pálpebras a seguinte máxima: crença é profecia, crença é profecia, crença é profecia… Quem pergunta é Tirésias ao contrário. Quem pergunta ama o oráculo. Quem pergunta odeia o oráculo. Quem pergunta transfere ao oráculo a sua esperança. Quem pergunta transfere o seu ódio. Quem pergunta transfere o seu amor.



Marte

A máquina lembra que há um modo para operar a máquina. O oráculo é máquina que debulha sentidos, arma a granada, separa o caos do lince. O oráculo é métrica, rima, mídia – é o labirinto e o fio da narrativa. Sua principal lâmina é a analógica Tem grafado no seu metal a seguinte frase: Mau agouro não é prognóstico.



Mercúrio

Tem a obrigação de dominar a máquina analógica, a arte da correspondência. O tradutor alia-se aos que um dia doaram as suas vidas e se feriram no reflexo das facas de Marte. A tradição remete-o ao modus operandi dos que um dia trilharam esta mesma estrada. Mercúrio é a ponte entre a Lua e Marte e Marte tem lá seus segredos com Hades. A pessoa do tradutor do oráculo não existe, ao menos esta é a sua busca, sua Fortuna. Ele é apenas o mensageiro. O respeito à tradição evoca a proteção do espírito dos mortos. O desdém à tradição evoca a indiferença do mundo dos mortos. Quem olha nos olhos do lince tem o compromisso de ser fiel ao lince. Depois de muito uso da ferramenta, cria-se uma aliança com a própria escuta e uma marca no fio da faca a ser deixada para posteridade. Oráculo é escuta. Oráculo é ofício dos segredos da tradução. Mercúrio encontra-se entre a tradução e a traição. Traduzir é ser fiel ao caminho do lince. Mas, diante de uma encruzilhada, quem arbitra o caminho a escolher na tradução é o intérprete. Quando o oráculo fala mais da pessoa do tradutor do que do texto a ser traduzido, o mistério fecha-se como o amor quando se fecha em copas. “Só há determinismo onde não há mistério”. (Oswald de Andrade)



A função dramática

A consulta oracular é uma performance art. Performance art: obra estruturada sob o signo do acaso, impossível de ser reproduzida. Tem a função de preparar quem pergunta à sorte que o anuncia. “Entre o sim e o não existe um vão.” (Itamar Assumpção)


A performance

É o que acontece durante a ação dramática. Joga-se a sorte. No tabuleiro ou nos céus, cria-se uma aliança entre quem pergunta, quem responde e o intérprete. O tradutor faz uso da máquina analógica. Tem a obrigação de dominar esta faca. Quem pergunta, olha para o espelho.

“- Nasci com Ascendente no Caranguejo, por isso a minha vida anda para trás”. “- Anda-se para trás e para baixo para seguir adiante.” A lógica da correspondência nos tira da farsa da lógica da causa e efeito. Quebrar o espelho dá sete anos de azar. A construção do texto analógico vem em ondas, tem ritmo, métrica e dor, segue a marcha da máquina. Analogia: como se não quisesse nada, aos poucos espraia sentidos para tudo quanto é lado. A lógica da correspondência une os pontos vitais, formando uma constelação de significados, uma trama de sentidos, ao ponto de extrair uma lasca de luz da lâmina do escuro. Destino é anagrama da palavra sentido, e vice-versa.

A leitura do texto oracular fabrica um mundo com palavras. Quando a sorte é recriada, relida, reinventa-se o mundo. Cura-se o mundo. A performance oracular é uma co-criação, assim como o Destino precisa do Livre-Arbítrio. É um ato criativo. Suavemente criativo. Terrivelmente criativo. E aí o tradutor inventa-se como demiurgo.

Demiurgo, fr. démiurge (demiourgon) < lat. demiurgus,i, emprt. ao gr. démiourgós,oû ‘artista, médico, artesão’

Além da analogia, o tradutor lança mão da metáfora, do cinema falado, da ruptura da crença, do verso saturnino e do rito. Ah, e é claro, do senso de humor de Mercúrio. A variação de recursos para atingir o objetivo da função dramática (preparar a pessoa à sorte que se anuncia), dependerá do tipo da pergunta e do sorteio, é claro.

A performance é um rito. Não é preciso valorizar o cenário. Não queira nada, seja apenas suficiente. O oráculo já é local profano e sagrado. Se a performance atinge seu objetivo, quem pergunta deixou de ser Lua e se transformou na Fortuna. A máquina, além de ficar mais suja de graxa, atinge sua sorte de ser ferramenta da Fortuna. E o intérprete alcança sua ambição, seu destino, sua Fortuna, a de ser apenas o mensageiro.

Depois de ler o oráculo, feche-o como se fecha um túmulo. Guarde o arco.


Cuidados com o oráculo (ícone de perigo com máquinas)

O tradutor pode se intoxicar com Mercúrio. Quem pergunta pode não parar de perguntar. A máquina pode emperrar a roda com os véus da ilusão.


A leitura de oráculos é uma arte da tradução. Uma arte bandida. Rouba-se o fogo dos deuses.

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso.” (Mallarmé)


O próximo passo está na escuta de quem o procura.


João Acuio



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