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A PEDRA FUNDAMENTAL DA ASTROLOGIA




A Astrologia ergue-se sobre o pensamento analógico. Pensamento que organiza os fenômenos através de correspondências por similitude, semelhança e parecença, isto é, pela analogia – essa é a sua pedra fundante.


“O mundo não é um teatro regido pelo acaso e o capricho, pelas forças cegas do imprevisível: é governado pelo ritmo e suas repetições e conjunções. É um teatro feito de acordes e reuniões, em que todas as exceções, inclusive a ser homem, encontram seu doble e sua correspondência. A analogia é o reino da palavra como, essa ponte verbal que, sem suprimir, reconcilia as diferenças e oposições. ” (Octavio Paz)

Este modo de articular a experiência da vida, os fenômenos, dá vida às artes ocultas, tais como a alquimia, a teoria das assinaturas, o pensamento mítico, o hermetismo, a cabala, a magia e a poesia, por exemplo.


A analogia é o sangue da poesia – o que fez Baudelaire chamá-la de "a ciência das correspondências". E o que é a Astrologia a não ser a ciência das correspondências aplicada a todas as coisas e eventos do mundo?


A analogia, essa operação linguística, está no coração da operação que une o macro e o microcosmo. É o que está dito no texto atribuído ao mito Hermes Trimegistos, a Tábua de Esmeralda: “O que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está embaixo; por estas coisas se fazem os milagres de uma só coisa.”






São 7 os atores do Teatro do Mundo. Saturno Júpiter Marte Sol Vênus Mercúrio e a Lua com suas múltiplas faces, estão embaixo e no alto ao mesmo tempo.


O céu é o duplo da terra. E eu os cito da ordem do mais pesado e lento ao mais leve e ligeiro. Se algo é lento e pesado este algo é de Saturno. Saturno e seu cajado. Se é ligeiro e leve é algo de Mercúrio. Mercúrio e suas sandálias aladas. O primeiro ancora o corpo no mundo tal qual o chumbo. O segundo, liga uma coisa com outra e outra coisa com uma – e assim movimenta o movimento.


Toda astrologia baseia-se nessa chave linguística: assim no Céu como na terra, assim da terra como no céu – a isso chamamos de analogia, essa chave-mestra que nos faz ver todo o céu andando pelo chão que nem cobra coral.


A Astrologia, através da sua pedra fundante, torna-se uma espécie de poética do universo, porque o organiza esteticamente através de sua linguagem. Através de seus mapas, então, revela qual o doble e correspondência sugerida e a finalidade de cada momento celeste. O seu texto, assim como um soneto de Shakespeare, tem tema, leitmotiv e ritmo. Em outras palavras, através da sua voz, liga as coisas do Céu aos da Terra (e vice-versa), linka a aparência com a sua finalidade, revelando assim seu caráter intrinsecamente teleológico. Entenda como se dá as correspondências de cada elemento que compõe o mapa astrológico, planetas signos casas estrelas temperamento e partes, as simpatias e antipatias entre os seus componentes, que começará então a ler o mundo e seus fenômenos.


“Enquanto sentires os astros acima de ti, não serás um vidente”, diria Nietzsche. É o que eu acho também. Abra um compasso e finque-o no centro do mundo - o centro está em toda parte –, e risca o primeiro círculo do palco da vida – aqui a vida manifesta: Fogo Ar Água Terra – e a mistura. Onde tudo muta em tudo – é o mundo, a vida manifesta. No centro do círculo, a Terra – este touro ora calmo ora furioso. As cosmogonias que localizam a terra no centro do mundo são tidas como geocêntricas. A astrologia estudada aqui é geocêntrica. Abra mais um pouco o compasso e risca o segundo círculo, aqui a rua da Lua, a que dita o ritmo das mutações dos corpos. O espaço entre o primeiro círculo e o segundo é o reino da Lua. Abra o compasso mais um pouco e desenhe mais uma esfera – o reino de Mercúrio, o Mensageiro dos deuses, filho da Lua. Vênus, a deusa do Amor, a dona da próxima orbe. A quarta orbe é do Sol – o centro da vida. O quinto céu é de Marte, o deus da guerra. Dizem que Marte é quem, no início dos tempos, fez girar as rocas do mundo. Júpiter governa a sexta orbe, e segundo Dante, a dos piedosos e misericordiosos. Saturno habita a sétima esfera, a mais distante e limítrofe. Por ser o último dos planetas visíveis a olho nu, Saturno guarda os limites, as portas, os ritos de passagem, o início e o fim dos tempos. Acima das esferas planetárias, temos o firmamento, o céu das estrelas fixas, onde estão incrustadas como pedras preciosas as estrelas do criador (aqui estão as constelações do zodíaco e demais estrelas). Acima da esfera das estrelas fixas, a nona esfera, contendo os signos do zodíaco enquanto modelo, como abstração (signo é diferente de constelação), conhecida como o Cristalino. Este céu, o do Zodíaco, é um doble, um duplo, do movimento aparente do Sol na esfera do centro da vida. Essa concepção é fundamental para a prática da astrologia como um todo. O Céu como um Duplo. O mapa é e não é o nativo. Acima da nona esfera, o primum mobile, o primeiro móvel, ou primeiro motor que, segundo Aristóteles, a sua força é tamanha que movimenta os céus dos errantes, dos planetas, girando as esferas celestes, este moinho de destinos. E, por fim, a décima primeira esfera, o Empíreo, o Absoluto, o inominável, onde foi fácil a teologia localizar Deus. A essa visão de mundo costuma-se ser denominada como a Máquina do Mundo de Ptolomeu. Desenhando seria, mais ou menos assim o nosso Teatro do Mundo:





Le Sphere de Monde, de Oronce Fine, 1549.



A Máquina do Mundo é uma máquina de texto, um jogo de tabuleiro. Esferas dentro de esferas dentro de esferas. Teatro de Arena e de combinações. O Céu é texto e jogo de combinações dramáticas. E como todo jogo ou texto, tem suas regras. O texto celeste começa a ser desenrolado do alto para baixo, e, depois, em sentido inverso, de baixo para cima. Hierarquia de quem fala primeiro, quem escuta em seguida. Então, repetindo, a esfera mais distante do nosso tabuleiro é o Empíreo, vasto e infinito, o inominável. Sempre bom lembrar que há algo acima ainda mais misterioso que o próprio fenômeno absurdo de criar texto observando o céu. “Creio porque é absurdo”. Mas o fenômeno do mundo pertence às esferas abaixo dessa. “Quando eu sair do seu círculo, não serei nem terá sido”. Abaixo do Empíreo, segundo Ptolomeu, o Primeiro Móvel – o que move as esferas seguintes dando curso aos destinos. Em seguida, o Cristalino – onde estão os signos do Zodíaco Tropical. Abaixo deste, o Céu das Estrelas Fixas. Aí vem Saturno – Júpiter – Marte – Sol – Vênus – Mercúrio – Lua. E a Terra. A Terra é o ponto de observação, o centro do mundo. O centro do tabuleiro. O céu é filho da terra, é o seu duplo. Céu e terra como um só organismo. O Mundo está em toda parte. E tem o seu próprio governo – é autogestivo. “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”. O Sol e a Lua são chamados de luminares. Os planetas de Errantes ou Estrelas. Os planetas são os atores do drama humano. O jogo desenrola do alto abaixo. Os signos e as estrelas dão à letra aos planetas que, por sua vez, de acordo com a sua natureza, atuam na arena do mundo, isto é, numa determinada casa astrológica. A ordem do texto segue a seguinte rota sintática: Signos/Estrelas (enredo e substantivo) > Planetas (ator e ação) > Terra/Casas Astrológicas (cenário do mundo). O texto baixa do Signo/Estrela > Ator > Cenário. Do mais genérico ao mais específico. As casas astrológicas são os cenários da vida. E depois, em sentido inverso, da casa, ao ator, ao signo. O mundo é um organismo e a via da vida é uma mão dupla. Tudo é milagre de um único milagre, tudo ressoa em tudo. Este é um sistema geocêntrico de explicação da Ordem do Mundo, mas há outros sistemas também geocêntricos que acrescentam outros céus ou os ordenam de outro modo (vide astrologia muçulmana e/ou hindu, o próprio Aristóteles com as suas 55 esferas e outras que, por exemplo, tomam a terra e o interior da terra também como um céu do mundo). Em qualquer cosmogonia até o século XVII, deus preside o céu supremo e absoluto, imutável e incorruptível, enquanto os demais céus são animados por anjos, deuses, deusas, o diabo. E uma conclusão natural de todos os sistemas de organização do mundo, é perceber que no céu há ordem, previsibilidade, repetição, padrão. Os errantes não erram pelo mundo sem-destino. Eu sei que o Sol abrirá o outono sempre no mesmo período do ano. E o que verão virá apesar do fascismo. E se no Céu há previsibilidade, embora o céu nunca seja o mesmo, é ele que servirá de ponteiro de organização dos fenômenos na terra. Na esfera da terra, mundo da corrupção, é onde acontecem as mutações dos corpos. Os fenômenos são diversos e variados na terra que, no entanto, correspondem ao movimento infinito e cíclico dos errantes nos céus no mundo. No Céu há Ordem, na Terra um caos aparente. Olhamos o Céu para constatar o cosmos do mundo na Terra. (Curitiba, 2007)

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