Rebento: Astrologia é tudo que nasce

Rebento: Astrologia é tudo que nasce

By | 2020-07-23T12:22:46-03:00 quarta-feira, 22 jul 2020|Outras Saturnálias|0 Comentários

RÁDIO SATURNÁLIA

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ASTROLOGIA É TUDO QUE NASCE

 

Rebento, a sexta canção do álbum Realce (1979) de Gilberto Gil, é a nossa primeira aula de astrologia.

 

O samba diz:

Rebento, substantivo abstrato
O ato, a criação, o seu momento
Como uma estrela nova e o seu barato
Que só Deus sabe lá no firmamento

Rebento, tudo que nasce é rebento
Tudo que brota, que vinga, que medra
Rebento raro como flor na pedra
Rebento farto como trigo ao vento

Astrologia é sobre tudo que nasce. E tudo nasce.

Tudo que nasce, caminha. Astrologia é sobre o rebento e seu destino inteiro.

Todo rebento só Deus sabe seu destino, mas nos deu a astrologia para que a gente vislumbre o seu barato.

É sempre sobre um momento raro e farto.

Quando o céu é o nascimento de uma pergunta, a prática astrológica chama-se Astrologia Horária.

Quando o rebento é uma cidade, revolução ou tufão, pratica-se Astrologia Política ou Mundana.

A prática de saúde que faz o diagnóstico e o prognóstico de uma queda, o acamar-se, chama-se Decumbitura – “o cair de cama lutando”.

Quando é sobre a natureza e o destino da aparição de uma pessoa, Astrologia das Natividades é como se chama.

Há ainda a prática de eleger o melhor momento para determinado fim: Astrologia Eletiva, é quando se brinca de brincar de deus – é uma prática mágica.

Realce, o álbum de número 28 de Gil, e o terceiro da trilogia Re (Refazenda, Refavela, Realce), nasceu dias depois de uma Lua Cheia em Aquário, no exato dia 15 de agosto de 1979: Sol- Júpiter-Vênus-Mercúrio encontravam-se em Leão, a depender da hora a Lua em Touro em Gêmeos, Marte em Cancer, Saturno e Dragão em Virgem. Já o Gil nasceu dias após uma Lua Nova em Gêmeos, sob o Sol no Caranguejo e a Lua em Sagitário, em Salvador.

Todo mapa astral é o céu de um momento visto de um determinado ponto da terra – a astrologia é geocêntrica.

Todo rebento tem assento num lugar da terra– deus está em toda parte, em todo mundo, em todo momento.

Todo mapa astral é o encontro entre o tempo e o espaço – a isso chamamos de momento. E todos os rebentos são do mundo.

Todo mapa astral nos conta uma história que nasce na encruzilhada entre o espaço e o tempo.

Não se trata de um céu influenciando a terra. Mas sim de um céu como reflexo de um momento do mundo, esse corpo.

O rebento é um momento do mundo.

E a canção continua:

 

Outras vezes rebento simplesmente
No presente do indicativo
Como a corrente de um cão furioso
Como as mãos de um lavrador ativo

Através de técnicas de precisão ou previsão, como queiram, é possível indicar momento de fúria, libertação, ou, no presente do indicativo, de emancipação ou maior protagonismo do rebento.

Às vezes, mesmo perigosamente
Como acidente em forno radioativo
Às vezes, só porque fico nervoso
Às vezes, somente porque eu estou vivo

A Astrologia também indica os momentos de maior perigo, isto é, direções a Marte ou a planetas que, acidentalmente, naquele mapa em especial, colocam em perigo a vida ou as ações do nativo. Os planetas possuem significados essenciais e acidentais.

Acidente é uma palavra cara à astrologia. E não poderia deixar de ser. Acidente é o que nos acontece sem planejamento, são os percalços no percurso. E o que é a vida a não ser uma sucessão de ações planejadas simultâneas à fortuidade dos acontecimentos?

O poeta diz também que rebenta, cria, quando fica nervoso – o mapa nos mostra o temperamento de cada momento.

Cada um reage a um mesmo fenômeno de acordo com a próprio natureza. Há os quentes como um forno radioativo (coléricos), há os lentos como um bom boi no pasto (fleugmático), os que sopram permanentemente (sanguíneos) e os que pensam e resmungam o dia inteiro (melancólicos).  Mas, independentemente da vontade, do acidente e do temperamento do nativo, a vida vai se fazendo, porque a vida está viva e essa é a sua sina: tomar tento no firmamento.

E chegamos a uma dura lição: Saturno faz parte da vida.

Rebento, a reação imediata
A cada sensação de abatimento
Rebento, o coração dizendo: “Bata”
A cada bofetão do sofrimento

O coração é análogo ao Sol, quem dá a vida, já o sofrimento é de Saturno, quem a esfria.

Sol é quente, Saturno é frio, mas ambos comungam da objetividade seca.

Se o Sol é o verão, o apogeu da primavera, Saturno é o inverno, o apogeu do outono.

Saturno, quem preside as passagens, os ritos de passagem, o parto, a parteria, significa a porta que é preciso passar para nascer.

Frente ao frio do mundo, da morte, trôpegos tropeços a Saturno, o quente da vida clama pela a atenção da cria: “- Rebento, o coração dizendo, bata, força…” que responde prontamente como a vida:

Rebento, esse trovão dentro da mata
E a imensidão do som
E a imensidão do som
E a imensidão do som desse momento

E o astrólogo é esse rebento que tem a sorte de cantar o destino de cada som.

 

João Acuio

22/07/2020 10h07 Curitiba.

Hoje, a Saturnália – Escola de Astrologia & Cidade faz 11 anos de vida.

Tenha um bom dia!

 

Sobre o Autor:

João Acuio, 46, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 28 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o Céu como narrativa.

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