Saturnália é isso aí

Saturnália é isso aí

By | 2019-02-04T21:53:57-03:00 quarta-feira, 30 jan 2019|Teoria|0 Comentários

Pergunto à moça do cafezinho com a qual faço PhD em Astrologia:

─ Qual a vantagem de ser Gêmeos?

─ A vantagem de ser ge-mi-no? A vantagem de ser ge-mi-no é que nunca se está sozinho.

─ Ah é, hmm… E a vantagem de ser Escorpião?

─ A vantagem de ser Escorpião é que ele se protege com o rabo.

Em seguida, a moça apoiada no balcão diz até logo, mas não sem antes revelar a tatuagem de escorpião em seu baixo-ventre.

─ Eu não disse, eu não disse…? Essa tipinha aí é do Escorpião, resmunga a sábia do cafezinho.

A sabedoria popular sempre me fascinou. Culpa do virginiano Nelson Rodrigues por me ensinar a dar ouvido ao que o povo diz e pensa. Astrologia como ela é.

─ E a Senhora Astro? Por que a Astrologia é tão é popular? Faço a pergunta do dia.

─ Ué, porque a gente lê horóscopo todo santo dia pra saber como vai ser o dia?! – responde com espanto, surpresa por ter que dizer o óbvio.

Resposta, aliás, que faz lembrar que a Astrologia sempre esteve ligada à mídia, seja a do jornal, a do rádio ou a do profeta em praça pública.

A moça do cafezinho, sem saber, ditou a máxima:

Astrologia é mídia.

Astrologia é mídia, meio, linguagem. O Céu é um livro aberto, página a ser lida, traduzida. Astrologia é a lógica, a mídia, a ferramenta que trata de fazer essa tradução. Mas há outros motivos que a faz popular.

Astrologia é a psicologia dos antigos, através de sua linguagem identifica e nomeia temperamentos psicológicos e contribui para que possamos celebrar a diferença. E assim sendo, a moça do cafezinho terá que o Leão é metido à besta, e o Virgo, perfeccionista e obsessivo. Faz com que Ítalo Calvino se diga de Saturno, por exemplo:

“Os antigos nos ensinam que o temperamento saturnino é próprio dos artistas, dos poetas, dos pensadores, e essa caracterização me parece correta. (…) Meu caráter apresenta sem dúvida os traços tradicionais da categoria a que pertenço: sempre permaneci um saturnino, por mais diversas que fosse as máscaras que procurasse usar. Minha veneração por Mercúrio talvez não passe de uma aspiração, um querer ser: sou um saturnino que sonha ser mercurial, e tudo o que escrevo se ressente dessas duas influências”. (Calvino em ‘Seis propostas para o próximo milênio’)

“Mercúrio, de pés alados, leve e aéreo, hábil e ágil, flexível e desenvolto, estabelece relações entre os deuses e entre os deuses e os homens, entre as leis universais e os casos particulares, entre as forças da natureza e as formas de cultura, entre todos os objetos do mundo e todos os seres pensantes. Que patrono melhor poderia escolher para o meu projeto literário?”. (idem)

A Astrologia é arte mercurial. Com os seus mapas revela qual a correspondência e a finalidade de cada momento celeste. Em outras palavras, pela sua voz, liga o céu e a terra (e vice-versa). Linka a aparência com a sua finalidade seja o mapa de uma pessoa, de um time de futebol ou mesmo o de uma cidade. Deste modo, a Astrologia revela assim seu caráter intrinsecamente teleológico, seu espírito essencialmente mercurial.

O outro motivo da popularidade da Astrologia está no fato de que seus deuses são feitos à imagem e semelhança humana. Panteão de paixões humanas. Os planetas e os signos do zodíaco desejam, amam, odeiam, guerreiam entre si, assim como os personagens de Nelson Rodrigues – o que contribui com a verdade de sua força psicológica. A vida como ela é.

─ Sabe por que Libra é o signo da Justiça? Continua a moça do cafezinho.

─ …

─ Porque Libra nunca pega juízo – diz com um sorrisinho no canto da boca.

Outro motivo, talvez o mais relevante, que faz da Astrologia viva e poderosa, é a preservação da idéia de Destino no centro do seu pensamento. É a simples idéia de que temos uma sorte única, um destino particular, uma história específica a trilhar. Há quem diga que, por conta disso, a Astrologia nos tira o livre-arbítrio (o que é uma bobagem, já que apenas a ignorância é capaz de tanto).

A idéia do Destino me garante que ninguém procura um astrólogo somente em busca do autoconhecimento. Não! Procura-se o extraordinário, um falar com os deuses (o que Jung chamou de complexos), um negociar com as paixões (aí está a magia, a alquimia de operações, a terapêutica, a astrologia médica), um sentido ao destino, um mergulho que vá da lama ao cosmos.

Só há determinismo onde não há mistério.

E aí, só de butuca, um moço com anel de doutô, depois de bebericar seu café com leite, dispara:

─ Astrologia é ciência?

O meu Mercúrio exaltado diz num balão de pensamento destes de HQ: “Defina ciência, por favor! Mas rápido, por favor. Mais ligeiro, please…”

Sabe-se lá Deus o que se quer dizer por ciência nesta altura do campeonato.

Ciência heisenberguiana? O observador perturba a coisa observada?

Ciência eisteniana? Ciência newtoniana?

Respondo:

─ Se considerarmos ciência toda prática que possui finalidade, método próprio, linguagem específica, prática passível de erros e acertos, portanto de autocrítica, campo de estudo em eterno desenvolvimento… Sim! Astrologia é ciência.

Confesso que dou pouco valor ao rótulo ‘ciência’ carimbando com louvor a carinha da Astrologia.

Há os que querem Astrologia regulamentada e com cadeira na Universidade como em tempos medievais. Prefiro interferir na conversa on line.

Casar Astrologia com a cultura contemporânea é fazê-la ressuscitar como sistema de representação o qual, por milênios, ajudou a organizar o mundo. Por isso, Televisão do Céu (Astrologia assistindo TV), Astrologia e mitos contemporâneos (vide Astrologia, quadrinhos e cinema), Astrologia e cultura pop (análise do panteão contemporâneo e sua influência), Astrologia como jogo oracular, Astrologia e dramaturgia, Astrologia como cinema falado. Astrologia, para valer suas máximas, terá que adentrar o admirável mundo pop, a aldeia global.

Nem guru, nem ligue djá, nem Nostradamus anunciando o juízo final, é Astrologia perturbando a leitura dos fenômenos culturais e não mais professando verdades, cagando regras sacerdotais.

Astrologia de rua, na rua, alimentando-se da cidade: Saturnália.

Polêmicas à parte, digo que a Astrologia é um ofício. E um segredo.

Do ofício, faz parte a escrita, a pesquisa (a fenomenologia é uma via preferencial), a crítica da tradição e o desenvolvimento de técnicas que pode vir a se unir ao corpo da tradição astrológica.

─ Ok ok ok, mas o que é o mapa astral, afinal? Pergunta a chefia do estabelecimento e palmeirense doente.

O mapa é o desenho do céu a partir de data, hora e local de nascimento. E ali está o teatro do mundo: a primeira forma de perceber a realidade (Lua); o gosto pelas coisas da vida (Vênus); o modo de ler e de se comunicar (Mercúrio); a virtude e a maneira de ser herói na vida (Sol); o modo de ir à luta (Marte); as crenças, a visão de mundo (Júpiter); o mestre e a responsabilidade de crescer através da superação da dor e dos próprios limites (Saturno).

Ainda acrescentamos à análise, o signo Ascendente, a Parte-da-Fortuna, Cauda e Cabeça-do-Dragão, Meio-Céu… Todos juntos no Céu do nosso mapa, num arranjo único e surpreendente, ditam o ritmo (o tempo) dos acontecimentos.

─ Mas se a Astrologia é isso, e se é possível fazer mapa de países, como poderia evitar crises políticas e econômicas, dentro de um contexto político tão difícil? indaga a chefia.

A influência do astrólogo na história política da Inglaterra pode ser vista no filme Elizabeth, com direção de Shekar Kapur, com Cate Blanchet no papel principal. John Dee, astrólogo, médico e conselheiro pessoal de Elizabeth, a Rainha Virgem (aliás, recebe Elizabeth é chamada assim por também ser do signo de Virgem), ao ser inquirido se a Inglaterra ganharia a guerra que se anunciara, não diz sim nem não, mas prepara a Rainha ao confronto inevitável. Entre o sim e o não há um vão. A função do astrólogo é preparar quem quer que seja a trilhar a vida que se apresenta: andaluz.

A Astrologia de países ou cidades é uma prática antiga. É a idéia de que estamos e ligados ao destino de uma comunidade. Como pensar o mapa do Michael Jackson, por exemplo, sem avaliar o mapa dos USA? E vice-versa?

Nada me tira da cabeça de que os fantasmas e os zumbis de Thriller são os ancestrais do povo americano renascidos das tumbas midiáticas pelo Sol-Plutão de Michael. Plutão é o dono das almas no mundo grego e Jackson é seu mensageiro. Fantasmas que vieram assombrar e… dançar. O Rei do Pop operou um expurgo midiático. (Hoje eu diria apenas que é o Sol de casa 4 do Michael; a casa 4 é a dos ancestrais).

Este é o mapa do Brasil: 7 de Setembro de 1822, às 16h30, às margens do Rio Ipiranga – SP.

O Brasil lida com heranças, sejam elas culturais ou políticas. Por conta do Mercúrio de Casa 8 – a das heranças – é herdeiro direto do Império Americano. Afinal, os USA caminham em direção da divisão da hegemonia do mundo.

Brasil tem a Lua em Gêmeos e a Lua no mapa de um coletivo representa a população. Vai ver que é por isso que gostamos tanto de duplas sertanejas, irmãos no Poder (Pedro e Fernando), Flora e Donatela, Claudinho e Bochecha, Pelé e Garrincha.

Por conta de Mercúrio, regente de Gêmeos e de Virgem, o povo brasileiro tem aptidão aos negócios, espírito fraterno, gosto pela fofoca, poder de adaptação, senso de humor, espírito malandro, e também uma tremenda dificuldade de assumir responsabilidades enquanto cidadão. Gêmeos é o eterno jovem que jamais cresce. Saca aquela que Deus é brasileiro? Pois é. E ainda tem a vantagem de ser gemino.

Mercúrio, o ladrão mítico, o menino-prodígio, o príncipe dos larápios e negociantes, o Exu, o Saci, a inteligência viva e comunicativa, reina no céu e por baixo do chão brasileiro. E é com ele que teremos que conversar sobre as dores e as delícias de ser Brasil.

─ Mas por que Astrologia é um segredo? Pergunta a mestra do cafezinho.

Arregaço as mangas da alegria e devolvo:

─ Você não sabe? Então não sou eu que vou dizer.

Enquanto sentires os astros acima de ti, jamais serás um vidente. (Nieztsche)

por Joao Acuio
__________________________________

artigo publicado na revista ffw_Mag! edição 13, 2009

#astrologia #saturnalia

#astrologia #saturnalia

Sobre o Autor:

João, 45, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 26 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o céu como narrativa.

Deixar Um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.