Sobre o signo de Leão

Sobre o signo de Leão

By | 2020-04-14T10:53:28-03:00 quarta-feira, 08 abr 2020|Signos, Teoria|0 Comentários

Tanto o Caranguejo quanto o Leão fazem parte da mesma estação, a do Verão mítico. Signos que nascem na estação mais quente do ano. O verão é de estação colérica, o temperamento que impõe a sua vontade ao mundo.

O Caranguejo representa a cheia dos rios, Leão o esplendor da farta plantação. Enquanto o Caranguejo tem a Lua como seu astro regente, a luz da noite, Leão governa através do Sol, a luz do dia.

Se Caranguejo é lunático, o Leão é solar. As entranhas são do Caranguejo, a juba do Leão. Se o Caranguejo tem a toca como habitat, o Leão é o rei da savana. Não há mistério sob as barbas do Leão.

Os nativos do Leão nascem rei, já que tem simplesmente o Sol como planeta regente. Mas acontece que o mundo mesmo assim contestará sua autoridade.

Leão nasce com uma coroa, mas terá que sustentar o peso do destino celeste sobre os ombros e sobre a consciência. Um dos maiores temores dos leões é quando o céu cai sobre suas cabeças, isto é, quando a sua reputação desaba.

Sustentar um destino grandioso e a expectativa de um destino que requer invariavelmente uma marca pessoal, essa é a sina do Leão.

É bonito ver na literatura astrológica antiga o respeito que se tem a aspectos mais terríveis sobre os signos. Não há tentativa alguma de escamotear a verdade e desenhar o signo com as cores que o signo não tem. O Caranguejo é enevoado como noites frias e misteriosas de luar, enquanto o Leão é uma fera bestial com garras e dentes afiados, mas tem coração puro, ao mesmo tempo. A simbólica astrológica é tão complexa quanto a empresa de se tornar pessoa inteira. Porque ser pessoa é ser rei e vice-vera. Basta dois palitos, dois segundos, uma sneira, para voltar a ser besta horrenda.

Todo signo é envolto em paradoxos e contradições. Não é diferente com o signo de Leão. Enquanto a literatura mais recente desenha o signo de Leão como magnâmico, a literatura mais antiga o descreve o Leão como devastador. Veja o que Manílio, poeta romano, I d.C, escreve sobre o signo do Sol:

“Quem teria dúvida sobre a natureza do devastador Leão e sobre quais ocupações ele dita aos que nascem sob o seu signo? Sempre novas lutas, novas guerras ele prepara contra os animais, e vive do espólio e das rapinas sobre os rebanhos…”

Leão, na antiguidade, tinha fama de insaciável e devorador. Na literatura mais recente, diz-se que o Leão é capaz de se apropriar de uma ideia que não lhe pertence, por exemplo, e sem cerimônia alguma dizer que é sua. A ideia que está por de trás dessa afirmação é a mesma, em suma, apenas Manílio disse com a dramaticidade que o Leão exige.

Leão é regido pelo Sol, o que explica muita coisa, já que não há estrela ou planeta que rivalize com o seu brilho. Mas bem que o Leão poderia ser regido por Vênus, já que não larga mão do espelho. Dizem que quebrar um espelho gera 7 anos de azar. Para um Leão, estilhaçar sua imagem, o infortúnio gerado deve ressoar 7 anos multiplicado por 7. Mas quando isso acontece, o Leão logo rapidamente refaz sua identidade, desfazendo a maldição.

O outro é o espelho do Leão. Aliás, este tema de ser capturado pelo o olhar do outro, também é mote severamente presente no signo da Libra, este sim com Vênus como planeta regente. Mas há diferenças. Enquanto Leão é radiante, sólido e dominador, procurando não perder a sim mesmo como eixo de referência, Libra oscila entre amar e ser amado. Libra é oscilante, Leão não.

Manílio continua sua terrível descrição sobre o caráter do signo de Leão, e conclui, agudamente: “Caráter igualmente propenso a súbita ira e a pronto recuo, e no coração, puro, um sentimento sem complicação”. E, de fato, o Leão, no aspecto afetivo, é sem complicação mesmo. No amor, é simples e objetivo. E quer ser tratado do mesmo jeito. Então, quer amar um ou uma Leoa? Ame-o ou deixe-o.

Leão aparenta ter uma personalidade coesa e acho que é isso que seduz os restantes dos animais. Num mundo onde se tornar pessoa tornou-se tárefa árdua e apavorante, topar com uma personalidade coesa, fixa, sólida, faz a esperança suspirar e crer e bater no peito que “tudo alcança a perfeição, e tornar-se uma verdadeira pessoa constitui a maior perfeição de todas” (Gracian). Mas eu duvidaria da aparência sólida e colocaria o Leão no divã, afinal, exatamente o Leão que é conhecido pelo o enxame de paixões. E paixões, por definição, destronam qualquer rei. Mas mesmo assim, aqui há uma verdade leonina e perene: parecer ser rei é, na maior parte das vezes, suficiente para reinar como tal.

Falando na maldição do espelho quebrado, não diria que o signo de Leão é um signo supesticioso. Isso porque Leão é absolutamente convicto que suas vitórias e derrotas dependem apenas da sua vontade e da condução desta. Gente é para brilhar e não para seguir regras e proibições, é o que o Leão acredita. Então, normas e dogmas não fazem sentido algum no mundo do LEão, a não ser que ele as tenha inventado. Um exemplo disso é a coleção de manias que possui antes de entrar no palco ou no campeonato. Mas para Leão isso não são superstições e sim o seu jeito extraordinariamente pessoal de ser.

Outro pecado capital do Leão, além da vaidade, é a soberba. Esta desmesura acomete quem tem o Sol como planeta dominante.

Luxo e luz tem a mesma raiz. Lux, em latim, é luz. A cor da pesagem do Leão é dourada, luminosa, radiante. Então, assim sendo, luxo e Leão são equivalentes. Se há ostentação, brilho, ouro, há Leão. Usa corrente de ouro, carro do ano, anel de doutô. Em outras palavras, na ciranda zodiacal, o Leão é o signo ostentação.

Leão é o Sol encarnado. E o Sol ama Vênus. Vênus recebe o Sol e o permite multiplicar os seus raios. Raios solares para tudo quanto é lado. Luz do Sol passando pelo cristal. Assim sendo, Libra, onde temos o domicílio diurno da Vênus e Peixes, onte temos a exaltação de Vênus, são signos pelos quais Leão tem gosto. Afinal, Libra e Peixes permitem o Leão dirigir, governar, dominar. Touro também é governado por Vênus e, de fato, Leão e Touro possuem pontos em comum, o gosto pelo gosto, por exemplo. Mas aqui, neste caso, Touro e Leão são caciques, um mais teimoso que o outro.

Leão e Touro fazem antíscia um ao outro. Simpatia.

Leão e Escorpião, contraantíscia. Antipatia.

Quando não tem brilho algum, Leão rouba a juba dourada alheia.

Fera besta, besta fera. Leão é o rei da selva. Marca território como um felino no cio. Tem o Sol entre os dentes, rosna para quem olha aos seus. Devastador, protetor. Engoliu o sol, por isso estufa o peito. O Leão é natimorto. Apenas nasce para vida depois que ruge alto três vezes ao deserto.

 

A imagem que ilustra este post é da artista e tatuadora Dilma Nascimento.

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Vale lembrar que Signo não faz nada. Quem faz são os Planetas. Os Planetas são os atores do Teatro do Mundo que é o Céu. O Signo é o adjetivo, o modo como o ator atua. Texto e figurino que veste o planeta-ator. O que lê acima são impressões, termos técnicos, ambiente, notas astrológicas e aforismos de um dos doze signos do zodíaco, para fins didáticos e dramatúrgicos.

Sobre o Autor:

João Acuio, 46, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 28 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o Céu como narrativa.

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