Notas astrológicas sobre o signo do Aquário

Notas astrológicas sobre o signo do Aquário

By | 2019-02-17T10:49:09-03:00 domingo, 20 jan 2019|Signos, Teoria|1 Comentário

Imagem: O aguadeiro – Lisboa : F.A.Martins [1900].

Aquário, O Aguadeiro, o guardador de água.

Aquário lembra ao rei e a si mesmo que, por aqui por baixo, todo mundo é gente. E gente não vive sozinho. Por isso é bom que todos cuidem da água e de tudo aquilo que é bem comum.

Aquário é um signo regido por Saturno, seu planeta regente. E Saturno é o que melhor entende os limites sociais. Os limites, assunto de Saturno, são para serem expandidos, segundo Aquário. E o outro nome disso é liberdade.

Mas a liberdade depende da liberdade que o outro exerce em relação ao outro e assim por diante. Por isso, Aquário é um dos signos mais tensos quanto às regras sociais e suas privações. Por isso também Aquário é muito envolvido com a política e as ações que discutem os direitos e deveres de cada um dentro da comunidade.

Aquário é um signo humano e, só por isso, estranho, errático, fadado às rugas do tempo. Saturno, o senhor do tempo porque porta uma foice, é o seu planeta regente. Dorotheus diz que Saturno faz festa em Aquário. E nome da festa a Saturno é Saturnália.

Aquário faz festa com Saturno. Saturno com as obrigações da vida já cumpridas, permite-se criar e investir em suas utopias. Sabe quando o velho fica tão velho e tão liberto do tempo que até rejuvenesce? Este é o Aquário, o signo que já nasce mais do que velho. O signo que, paradoxalmente, é chamado de “O Jovem”, por Manílio. Tive uma avó aquariana que aos 95 anos fazia planos de abrir e tocar um negócio.

Aquário anuncia transições políticas.

Aquário conta a história de Ganimedes, o pastor que é elevado aos céus por Júpiter. E lá está ele, ajoelhado portando uma ânfora e afirmando que a humanidade é tão divina quanto os deuses.

Os deuses precisam dos homens tão quanto os homens precisam dos deuses. É uma relação de mútua recepção. Ninguém vive sozinho, vivemos em sociedade, é o que o Aquário nos lembra.

Antes que Júpiter eleve Ganimedes aos céus, o deus do trovão se apaixonou pelo pastor e, por que não, por toda a humanidade. Aquário também simboliza o amor entre iguais. Ganimedes liberta Júpiter da sua função procriadora.

Aquário é o exílio do Sol. Faz frio no terreno de Saturno. Com frio, sob o gelo, o único jeito é se juntar, se abraçar, para reunir calor. Prometeu, o que rouba o fogo dos deuses para doar aos homens, está associado ao signo de Aquário.

Um isqueiro, uma caixa de fósforos, são invenções de Prometeu. Todo o processo de libertar o homem da dependência, da miséria, da vergonha, é prometéico. Aquário preside este engenho. Aquario é o outro nome de Prometeu.

Aquário não sonha depender dos governos, por isso despreza as autoridades. Afinal, onde estarão os reis quando o inverno chegar? Quando a água faltar? Quando a incompetência reinar? Estarão ajoelhados aos pés do Aquário suplicando soluções criativas, prometéicas, para conter a onda de revolta e a miséria galopante fruto da gerência baseada na tirania e ganância.

Um século para cá, Urano, a bola no céu, foi atribuído a Aquário. Urano regeria Aquário, como a representar a eletricidade, a inventividade e a revolução. Mas eu te pergunto, quer dizer que antes do início do século XX, nunca houve invenção, jamais houveram revoluções e muito menos genialidade?

Na antiguidade, a genialidade do tipo aquariano que beira a loucura e também a ousadia absoluta era atribuída à melancolia de Saturno, o seu planeta regente. Ou a Mercúrio. A genialidade melancólica é capaz de traduzir deus e seus lampejos. E o pensamento tortuoso, o de tocaia de Saturno, promove golpes de Estado. Aquário, por ter Saturno como rei, trama. Trama com inventividade. E a luz se faz.

Aquário tem um olhar altivo. A flor solitária no alto da montanha.

Há um ar de superioridade aquariana que vem junto com o ar rarefeito do alto do mundo. Ganimedes nos vê do céu e observa a mesquinhez humana ampla e irrestrita. Poucos podem se dizer humanos, afinal, os signos bestiais são a imensa maioria.

O seu ar superior e distante, mas com olhos vidrados, vem do seu fado de ser da espécie humana, este ser que tem o seu destino emaranhado com os demais da sua espécie. A liberdade, a transgressão, o romper com a natureza e com os ditos instintos é o seu destino e a sua prisão.

Ficar acima das pulsões de raiva e desejo, vencê-las, lança qualquer um aos céus da solidão. E a função de pastor de ovelhas, trabalho de Ganimedes, o outro nome de Aquário, continua sendo exercida, solitariamente, do alto dos céus.

Dorotheus diz que Saturno faz a festa quando está em Aquário. Em Capricórnio, o outro domicílio de Saturno, seria referência a maior isolamento e tristeza. Em Aquário, Saturno faz festa, há um gozo aqui.

O gozo é ir além das regras estabelecidas por ele mesmo.

Aquário é Saturnália, um respiro na engrenagem do poder.

A originalidade é uma marca de Aquário. Assim como a juventude eterna. O Aguadeiro dá a impressão que, no fundo, não encarnou totalmente e, por isso, as rugas do tempo não o encontra. E nem irá encontrá-lo, e o Aquário muito menos virá a encarnar, afinal, o Aguadeiro habita altos ideais, céus inatingíveis, representando a raça humana. A sua função é trazer as idéias que transformarão a bestialidade em pessoa humana.

Aquário habita a utopia, este lugar nenhum. Aquário habita a ideia de ser gente, imaterial, espírito acima das paixões da carne. Como habita o pensamento humano, o ar que nos é comum, tem pouco interesse pelas raízes. Aquário pertence às folhas e ao vento. E o vento não tem pátria. O vento não é daqui, o vento não é dali, o vento é de nenhum lugar. Mas o vento sopra numa determinada direção.

Aquário é este sopro que ora tira a árvore pela raiz ora areja as ideias e os costumes da cidade. Aquário pertence ao hálito do céu da boca do mundo. São suas ideias que fazem girar o moinho do tempo.

Nise da Silveira, a psiquiatra que já anos 50 colocou gatos e cachorros dentro do hospital psiquiátrico a fim de ajudar a capacidade de contato de pacientes esquizofrênicos, tinha, tem, o Sol em Aquário. Nise rompeu com os tratamentos que, pasmem, ainda assolam o sistema da loucura mental em nosso país. Além dos gatos, inseriu pincéis, jogos, arte nos corredores da loucura. A Casa que dirigia tinha as portas abertas. Foi presa política quando muito menina. Aquário acredita na sua loucura de futuro e liberdade

Aquário se diverte. Sua brincadeira favorita é a de causar espanto, escândalo, estranheza. Aquário é chocante. E nem sempre é de caso pensado, aliás, quase nunca. Aquário é estranho pela própria natureza. Muitos atribuem ao seu planeta regente, Saturno, o pai da melancolia, o que produz a razão e também a genialidade. Mas o Aguadeiro é assim, produz espanto, ruídos no status estabelecido, simplesmente porque alguém precisa exercer esta função. Alguém precisa fazer a função de vento, de fole e manter a utopia de ser humano acesa e vibrante. Alguém precisa roubar o fogo dos deuses para acender a chama. Aquário é símbolo do ser humano que se elevou aos céus por ser desobediente, isto é, assim como os deuses seriam.

Aquário, para a Astrologia, não é o objeto onde se guardam peixes. Aquário, ou em latim aquarius, é igual a Aguadeiro, o guardião da água potável. Aquário, portanto, é signo que se define por portar função social: o de zelar pelo bem mais valioso da comunidade, a água. Leia-se água igual a ideia original a serviço do futuro e bem comum.

O Aguadeiro é o mais humano dos signos. É a humanidade elevada aos céus entre leões, cabras, bois, escorpiões. Aquário é o signo mais humano do zodíaco e, por isso, também o mais estranho e semelhante.

Dizer que um signo é humano equivale embranquecer as paixões.

Aquário são as orelhas de Spock do Arnaldo Antunes. É a pinta no meio da testa da Sabrina Sato. A genialidade de língua de fora de Albert Einstein. É a pulsão de diferenciar-se do gado. Quanto mais estranho, mais comum à estranha família humana.

Anote aí, vou lhe contar um segredo: Aquário é família. Coleciona amigos como se fossem irmãos.

Aquário é quem traz o vento. O tempo e o vento. O vento que alvoroça. O vento que levanta a saia da moça ou do rapaz. O vento que traz novos tempos. O tempo que traz novos ventos.

Aquário é um signo que anuncia transições políticas. Liga o velho com a criança, o futuro com o tradicional – esta é a natureza do fluxo de sua urna. Tem um pé na tradição, enquanto inspira e expira novos ventos.

Aquário é um fole. Se não é a água que o Aguadeiro zela, é do fogo dentro da roda que cuida. Alguém precisa manter o fogo aceso para ninguém morrer de fome. O mesmo fogo mítico que Aquário rouba dos deuses para libertar os homens das trevas. Troque o fogo ou a água por alguma utopia, invenção ou ideia, que encontrará o Aguadeiro.

Aquário exila o Sol. Aquário detesta reis. Mas quando senta no trono, pode ser o pior dos tiranos.

Algumas notas sobre os signos do Zodíaco - imagens, aforismos, citações

Sobre o Autor:

João, 45, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 26 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o céu como narrativa.

Um Comentário

  1. Karla de Menezes 19/05/2019 em 21:45 - Responder

    Caramba, me senti completamente descrita.. estava apreensiva ao saber que o sol está exilado em Aquário, porém vc fez uma releitura completa do que se fala sobre esse assunto. Agora consegui entender o motivo e principalmente o propósito de ser e estar o Sol exilado em Aquário. A própria contradição do Aguadeiro.

Deixar Um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.