Notas astrológicas sobre o signo do Caranguejo

Notas astrológicas sobre o signo do Caranguejo

By | 2019-02-17T10:50:19-03:00 quinta-feira, 12 jul 2018|Signos|2 Comentários
Quando menos se espera, o Caranguejo é tomado pela saudade. É mais correto dizer que o Caranguejo é tomado, possuído, dragado pela nostalgia. E nostalgia é uma espécie de torpor. Saudade de algo que nem se sabe, mas entorpece, enlouquece, adormece. A vontade é de se jogar do penhasco de peito aberto. Mas o Caranguejo não se joga. Nestes momentos fica prostrado nas rochas esperando a embarcação que o levará além-mar. Espera a embarcação enquanto escuta o mar lhe chamar. A embarcação nunca chega. E assim como a nostalgia que, de repente, o tomou, o torpor se vai numa manhã qualquer. E aí o Caranguejo, como se nada tivesse acontecido, volta à sua cidade e retoma a vida de onde parou.

O Gil é do Grande Caranguejo dos Céus. No vídeo a seguir, fala da saudade e da origem, isto é, sobre a beira do mar.

O Caranguejo está entre o Leão e o Gêmeos. É um signo cardinal, abre o solstício do verão, a estação mítica das cheias dos rios.

O Caranguejo nasce em carne viva, rosada, lançado ao mundo para testar a própria sorte. O sentimento de orfandade, aliás, é lugar-comum quando pensamos no signo do Caranguejo. Orfandade e pertencimento, ao mesmo tempo.

A orfandade é outro clichê que abarrota a sua morada feita de água, luares e saudade. Mas é mais do que saudade, é nostalgia do paraíso um dia perdido. Portugal deve ser do signo do Caranguejo. Coloque a concha no ouvido? Escuta o fado ao fundo?

O Caranguejo nasce pelado, vermelho, vivo. E, assim sendo, é claro que qualquer brisa, sopro ou esbarro, fere quem está vivo em chamas como o Sol. Caranguejo é signo sob o signo da vulnerabilidade.

É por isso também que o ambiente para o Caranguejo ganha status de protetor ou, quando seco e quente, de total horror.

Câncer nasce em carne viva em ambiente úmido, lodoso e, com o andar da Lua, do tempo, forma carapaça protetora, essa espécie de escudo, casa, concha.

Após o Caranguejo formar sua casca protetora das invasões bárbaras e indesejadas, o interior começa a crescer, a crescer, a crescer igual ao bolo de chocolate colocado no forno pela sua vó. Cresce, a um ponto do Caranguejo se sentir sufocado pela armadura construída, obrigando que se desfaça dos limites construídos, fazendo com que jogue a casca no mangue, como se num trabalho de parto estivesse, para recomeçar tudo de novo, em carne viva, mais uma vez, a sua nova casa protetora.

Quando chega a hora de ganhar outro mundo, o Caranguejo abandona sua velha carcaça no mangue da memória: o que um dia se viveu servirá de alimento para si e aos seus.

 

O Caranguejo oscila entre o vermelho da carne viva e o branco da casca pálida.

As pinças do Caranguejo pinçam, estrangulam, estancam. E nada faz o Caranguejo desatar as pinças. Nem sob tortura desiste, larga ou abandona o que um dia pinçou com suas facas. Este também um dos motivos que o perdão e a misericórdia são tão necessários neste signo.

Recuar é da natureza canceriana, é um dos seus passos. Os demais passos da dança do Caranguejo são para o lado e para baixo. Ah! Há o ataque oblíquo também.

Caranguejo passa a vida toda voltando para casa.

Cancer, Caranguejo em latim, é signo que oferece morada à Lua, a que governa as águas do mundo. As águas da imaginação, as águas do psiquismo, as águas do corpo, as águas da memória. Caranguejos são filhos da Lua, dessa que dita o ritmo da maré, dessa que muda conforme a lua.

Faz antíscia com Gêmeos e, ambos, são bons contadores de história.

Faz contra-antíscia com Sagitário. O signo do pertencer à uma comunidade e lugar versus o signo andarilho sobre um cavalo andante.

O signo de Cancer/Caranguejo sempre faz a seguinte pergunta pertinente e perturbadora:

– A que você pertence? A quem você pertence?

Caranguejo exalta Júpiter, porém. Câncer exalta a fertilidade e a esfera do educador.

Caranguejo é fértil como o manguezal.

O chão da sua casa caracteriza-se por ser úmido, salgado, lodoso, pobre em oxigênio e riquíssimo em nutrientes. Um dos ecossistemas mais férteis da natureza. E Câncer realmente é tido como signo fértil.

Os nutrientes provêm da grande quantidade de matéria orgânica em decomposição. Caranguejo alimenta-se de cadáveres – excelente metáfora para quem se nutre com o passado, com o que já morreu.

O Grande Caranguejo dos Céus é o rei do manguezal. O manguezal dá abrigo, calor e alimento. Cancer, portanto, é signo de nutrição e proteção. Sob sua saia, sempre cabe mais um. Signo de casa, ninho, toca, mas também do lodo em que se atola. Ou para onde se retorna, no fim.

Quando Chico Science procurou um símbolo para representar o seu manancial de referências, encontrou o Caranguejo, dono dos mangues de Recife, dos Céus, do Mangue Beat e do mundo todo. Câncer é signo de fertilidade, alimento e vingança. Vida que renasce das misturas feitas nas tumbas de barro debaixo do chão.

Aqui o manifesto do Mangue Beat, Caranguejos com Cérebro, escrito por Fred Zero Quatro, do qual cito a primeira parte:

MANGUE

“Estuário. Parte terminal de um rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos dos mares. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.
Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem dos alagadiços costeiros.
Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas os mangues são tidos como os símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.”

_________________

Essas são algumas notas astrológicas, imagens e aforismos sobre o signo de Cancer, o Grande Caranguejo dos Céus.

Sobre o Autor:

João, 45, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 26 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o céu como narrativa.

2 Comentários

  1. Hewton 22/06/2019 em 22:29 - Responder

    Lindo texto

  2. Rebecca 16/07/2019 em 14:02 - Responder

    Nunca vi um texto me retratar com tanto cuidado e perfeição.
    Obrigada! 🙂

Deixar Um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.