Spica, Espiga, Virgo

Spica, Espiga, Virgo

By | 2019-10-15T10:24:32-03:00 terça-feira, 15 out 2019|Estrelas Fixas, Teoria|1 Comentário

“Diversificará em muitas formas uma mesma matéria-prima”.

Spica é o nome da estrela alfa da constelação de Virgem.

Spica, em latim, significa ESPIGA.

O signo da Virgem, em sua iconografia mais recorrente, é uma mulher-anjo que segura em uma das mãos uma ESPIGA ou um filete de trigo, frutos do trabalho da humanidade com o tempo e com a terra.
A Spica, hoje, está alinhada no grau 24 de LIBRA. No grau 24 e 7 minutos da Libra, para ser mais exato, é onde a alfa de Virgem se alinha. Isso quer dizer que hoje qualquer planeta a esta altura de Libra tem sérias conotações virginianas, isto é, o anseio pela Ordem, Lei e Sabedoria.

As alfas das constelações zodiacais concentram os atributos comumente atribuídos aos signos. Hamal, a alfa do Carneiro, por exemplo, que hoje está a 7 graus do Touro, guarda no crânio todo o impulso ígneo dos céus para atacar a qualquer momento. Ou a alfa do Leão, Regulus, que hoje está a 150 graus da eclíptica, isto é, a zero de Virgem, pulsa de fato a nobreza do coração do Leão, soterrada geralmente pela voracidade dos seus caninos. A Spica, a alfa de Virgem, por sua vez, concentra os atributos da prosperidade oriunda do trabalho, a humanidade das mãos guiadas pela a inteligência e a natureza imaculada que há em todo ser humano.

Há um ditado africano que diz que todo grão de milho vai nu ao campo e, de lá, volta vestido e com a boa sorte. Matar a fome dos seus é uma dádiva a que, a priori, somos todos merecedores. No entanto, a disciplina e a inteligência virginianas, atributos que são necessários para que qualquer semeadura alcance o frescor e a fartura da maturidade, terão que ser conquistados sol a sol, honrando o suor dos céus e da própria testa. Enquanto uma mão, pela enxada do tempo, fica calejada, a outra, porta a espiga, pura, com a qual abençoará o pão e tudo mais o que tocar.

Virgem nos remete ao sagrado e ao segredo do trabalho: toda riqueza vem da terra, toda riqueza volta à terra. E, por isso, este ciclo de produção deve, segundo o olhar da Virgem, não produzir danos, ou produzir o menor dano. A semente é plantada, a lavoura é cultivada, o trigo é colhido, limpo e estocado e, enquanto se trabalha, produz-se cultura. E quando o processo chega ao fim, dá-se um tempo, espera-se o tempo, e dá início ao processo mais uma vez, para que se possa aperfeiçoá-lo. É sempre a mesma coisa, mas sempre diferente aos olhos da Virgem. Para Virgem, o trabalho é imbatível.

Em alguns mitos, a Virgem que está representada nos Céus é Astréia. A deusa que ensinou aos homens a cultivar a terra e, quando percebeu que os homens faziam tudo errado, maculando a terra com os seus gestos e palavras, retira-se do mundo ruborizada, com vergonha. E, desde então, lá no Alto dos Céus, lembra que a obra é divina, porém imperfeita, por isso conta com todos aqueles para descobrir as suas leis, os seus ritos e sua magia. Aos que a desprezam, o desequilíbrio do corpo e a pobreza.

Ptolomeu diz que a Spica é uma estrela de Vênus e de Marte. E, assim sendo, com destinações benéficas e maléficas, ao mesmo tempo. Vênus abençoa o mundo dos que respeitam os ritmos da natureza. Marte é capaz de aplicar a justiça a quem a desobedece. A mesma mão que auxilia os obedientes, marca os impuros.

Nativos que a possuem, SPICA, conjunta ao Almutem da Carta, ou junta ao Sol, Lua, SAN, ao planeta com mais dignidade essencial e acidental, são pessoas exigentes e impecáveis. Incorruptíveis, exigirão de si a excelência e o comportamento exemplar em tudo a que se dedicam. Esta é a estrela das figuras exemplares, em suma. Fernanda Montenegro, a primeira dama do teatro brasileiro, que jamais de autodenominaria assim, porque a humildade é um atributo desta configuração, tem o Sol conjunto a Spica. E, de fato, Montenegro é um exemplo a qualquer aspirante a ator ou atriz. Fazer o que se deve fazer não é glória alguma, e sim e somente meramente o dever, aos olhos da Virgem.

Spica destina a colheita. O que se planta, colhe-se. Aliás, este ditado é extremamente saturnino. Mas não é por acaso que Astréia, a deusa ultrajada, também é tida como quem anunciará a volta da Idade de Ouro presidida por Saturno. Houve um tempo onde tudo ocorria sob o signo da perfeição e este tempo um dia corrompido, diz o mito, voltará pelas mãos da Virgem. Então, quando a Spica é vista ascendendo no horizonte é sinal que a colheita deve começar e também prenúncio de que a Ordem do mundo está próxima.

Spica, em suma, tem o destino de ensinar à humanidade através do exemplo. Assim como destina a sorte na lavoura porque é impecável como o tempo. “Diversificará em muitas formas uma mesma matéria-prima” (Manílio)

 

Sobre o Autor:

João, 45, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 26 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o céu como narrativa.

Um Comentário

  1. Mayara Nunes 23/10/2019 em 15:21 - Responder

    Lindo site, linda página no facebook e lindo texto! Tenho o sol na cúspide de virgem e libra exatamente onde se situa Spica, sou atriz e grande admiradora da Fernanda. Muito feliz em ler esta matéria.

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