Televisão do Céu

Televisão do Céu

By | 2018-07-20T13:36:30+00:00 segunda-feira, 19 mar 2018|Eventos, Prática|0 Comentários

 Televisão do Céu ou de Quando o Fantástico Show da Vida se Tornou Uma Ode ao Dia dos Mortos

Que a televisão não seja sempre vista/
Como a montra condenada, a fenestra sinistra/
Mas tomada pelo que ela é/
De poesia.
Possa o vídeo ser o lago onde Narciso/
Seja um deus que saberá também/
Ressuscitar[1]

I.

No dia 02 de novembro de 2003, assisto o Fantástico – O Show da Vida, programa dominical da Rede Globo de Televisão, contemplando o Céu de cada matéria exibida.

A intenção primeira não era constatar a eficácia astrológica, mas sim construir uma escuta do que era exibido através do software astrológico.

Além de servir como um recurso de aprendizagem da linguagem do Céu, ver televisão com lentes astrológicas também é uma aventura em direção à qualidade da tradução que a mídia faz de determinados motes simbólicos.

Se, em primeiro lugar, revela como o produtor do vídeo e a mídia em questão discursam sobre determinados temas, num segundo momento, quando não ao mesmo tempo, vislumbra-se como a gente brasileira se relaciona com determinadas experiências da existência.

A TV tem uma função mercuriana, isto é, dizer sobre, em nome e ao povo brasileiro, ou, não menos importante, a determinados setores da sociedade ou através deles. Enfim, dar vozes a diferentes coros. Assim, Mercúrio afirma sua função de Mensageiro dos Deuses.

Se a televisão é Mercúrio, o controle remoto é o seu caduceu.

Não seria exagero dizer que a televisão brasileira faz o papel de Mercúrio da nação. A construção de uma identidade coletiva, múltipla e multifacetada, tem na televisão uma aliada (ou uma inimiga?), porque só ela pode juntar culturalmente um povo com tantas diferenças convivendo num país continental. E também manipulá-lo.

Através da TV a gente brasileira se vê e se estranha nesta espécie de espelho midiático. A TV nacional está para o Brasil assim como o cinema está para os EUA.

Um mapa duplamente regido por Mercúrio, Sol e Mercúrio em Virgem, Lua-Júpiter em Gêmeos, como é o mapa da Independência do Brasil, não despreza este recurso.

(Brasil – O Grito do Ipiranga, 7/09/1822 às 16h30 LMT, São Paulo – SP, Regiomontanus: Asc. 27○08´Aquário/ M.C. 26○08´Escorpião).

Por outro lado, ao ser analisada sob o prisma astrológico, a televisão ganha a oportunidade de ser vista além do bem e do mal, muito a gosto do amoral Mercúrio a qual está submetida. Uma leitura simbólica, além da ideologia.

Assim sendo, em conjunção com as palavras do poeta, que a televisão possa, através de uma leitura simbólica e estética, libertar-se do costumeiro balcão de negócios (montra condenada) onde ela é normalmente jogada e, como querem muitos, do seu triste infinito destino de fenestra sinistra.
________________________________________

II.
A Astrologia ergue-se sobre o pensamento analógico.

Pensamento que organiza os fenômenos através de correspondências por similitude, semelhança e parecença, isto é, pela analogia.

Vale lembrar as palavras do ensaísta Octávio Paz:

“O mundo não é um teatro regido pelo acaso e o capricho, pelas forças cegas do imprevisível: é governado pelo ritmo e suas repetições e conjunções. É um teatro feito de acordes e reuniões, em que todas as exceções, inclusive a ser homem, encontram seu doble e sua correspondência. A analogia é o reino da palavra como, essa ponte verbal que, sem suprimir, reconcilia as diferenças e oposições.[2]”

Este outro modo de pensar, dá vida às artes ocultas, tais como a alquimia, a teoria das assinaturas, o pensamento mítico, o hermetismo, a cabala, a magia e a poesia, por exemplo.

Aliás, a analogia é o sangue da poesia – o que fez Baudelaire chamá-la de a ciência das correspondências.

E o que é a Astrologia a não ser a ciência das correspondências aplicada a todas as coisas e eventos do mundo?

A analogia, assim, está no coração da operação que une o macro e o microcosmo, isto é, o que está “no alto” e “embaixo”, como é dito no texto atribuído ao mito Hermes Trimegisto, a Tábua de Esmeralda:

“O que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está embaixo; por estas coisas se fazem os milagres de uma só coisa.”[3]

A Astrologia, portanto, torna-se uma espécie de poética do universo, porque o organiza esteticamente através de sua linguagem. Assim como um soneto de Petrarca, tem tema e ritmo.

Através de seus mapas, revela qual o doble e correspondência sugerida e a finalidade de cada momento celeste.

Em outras palavras, através da sua voz, liga as coisas do Céu aos da Terra (e vice-versa), linka a aparência com a sua finalidade, revelando assim seu caráter intrinsecamente teleológico.

Assim sendo, por que não ver Ordem Celeste num prosaico programa de televisão?

III.
Uma Ode ao Dia de Todos os Mortos

Com o sinal sendo transmitido da cidade do Rio de Janeiro para todo o país, o programa do domingo dia dois de novembro de 2003, teve início às 20h32 (horário de verão), sob o seguinte Céu:

(Fantástico Show da Vida, 2/11/2003, 20h32, Fuso 2 – horário de verão, Rio de Janeiro-RJ, Regiomontanus: Asc. 29○20´Touro/M.C. 4○42´Peixes)

Surpreendentemente o programa não inicia com a sua vinheta habitual, indo diretamente à matéria Surfistas descobrem Hawaii brasileiro no Rio Grande do Sul.

O programa começa com o Ascendente no último grau de Touro.

Vênus em Sagitário – o gosto por aventura – ganha destaque por reger o Ascendente. A estrela-guia também é o planeta mais angular em questão, como a indicar a sua materialidade.

Planetas angulares, isto é, juntos ao Ascendente, Meio-Céu, Descendente e Fundo-do-Céu, sempre ganham destaque na análise.

Segundo William Lilly[4], caso tenha diferentes planetas em diferentes ângulos, o planeta com mais força e destaque aparece nesta ordem de casas:

1 – 10 – 7 – 4 – 11 – 5 – 9 – 3 -2 – 8 – 6 – 12

Diz Lilly:

“(…) se dois Planetas estiverem igualmente dignificados, um no Ascendente, o outro na décima casa, deves julgar que o Planeta no Ascendente está com um pouco mais de força para causar o efeito do que ele Significa, do que o que está na décima:
Age da mesma forma no restante, do modo em que estão ordenadas, lembrando que Planetas em Ângulos de forma mais imperiosa mostram seus efeitos.”[5].

Lilly está se referindo a um mapa fixo, determinado, utilizado para a prática da Astrologia Horária ou leitura de natividades. Afirma que o planeta mais próximo ao ângulo tem mais força.

O que estamos fazendo aqui é ver o Céu a cada instante. E o que verificamos durante o programa, é o destaque do planeta ao formar aspecto mais justo ao ângulo.

No mapa acima, há três planetas angulares: Lua (1° de Peixes) e Marte (8° de Peixes) próximo ao 4° de Peixes e Vênus (0° de Sagitário) junto ao 29° de Escorpião. Assim sendo, na decorrer do tempo, Vênus ficará primeiramente mais angular porque mais próximo do ângulo Descendente.

E de acordo, a matéria narra a coragem de surfistas brasileiros ao se aventurarem em ondas gigantes, apoiando-se assim sob signo do exagero e da autoconfiança, Sagitário. A hipérbole é característica dos signos regidos por Júpiter.

Era dia de Finados, isto é, o momento estava sob Sol em Escorpião, o que fez com que todo o programa daquela noite estivesse focado (Sol) no signo análogo à morte.

Se, inicialmente, a matéria tinha um tom otimista, logo a seguir mergulhou na possibilidade da tragédia: um surfista desaparece exigindo a presença do corpo de bombeiros.

A notícia transcrevia com exatidão o gosto pela aventura, Vênus em Sagitário angular em quadratura com a também angular Lua-Marte em Peixes, o que sugere a tensão entre a aventura (sagitário) e o salvamento (peixes).

Marte em Peixes é o corpo de bombeiros.

Marte é análogo ao militar porque Deus da Guerra, e Peixes refere-se ao redentor, ao salvador. Assim, ‘bombeiro’ é uma possível e apropriada tradução para Marte em Peixes.

Vênus abre a 12 – a dos desaparecidos e exilados. Detalhe: o surfista desapareceu no fim da tarde, isto é, Vênus no poente (Descendente).

Os bombeiros vieram salvar, Marte em Peixes e não encontraram o surfista. No dia seguinte, como um Ulisses exilado na ilha dos lobos, o desaparecido chega à praia a nado. Havia encontrado uma ilha onde passara a noite.

Essa relação morte-redenção, Escorpião-Peixes, será recorrente durante todo o programa. Mas agora, de início, a reunião da morte com salvamento nasceu sob o signo da musa venturosa: Vênus em Sagitário.

Se for para desafiar a morte que seja pelos cantos da musa, ou em linguagem moderna, nos encantos da anima.

A lembrança de Ulisses não é à toa, já que este na Odisséia de Homero também trava uma batalha com os mares, com Netuno, para poder voltar aos braços de Penélope, sua amada.

Importante notar Júpiter, regente tradicional de Sagitário e Peixes, encontrar-se na casa 4 – cenário do lar.

Ulisses e aquela simples matéria de poucos minutos, comungam do mesmo mote: o feito de algo extraordinário (surfar ondas gigantes), em seguida, o desaparecimento como a indicar a morte e, por fim, o retorno ao lar, agora nascido duas vezes.

O surfista com certeza viveu uma experiência-limite. O mar ganhara, na matéria, a significação de musa a ser conquistada, a de cemitério e, por fim, a de útero.

O surfista nascera duas vezes.

Corte: propaganda.

________________________________________

IV.

Trailer do filme Matrix que termina dizendo: TODO COMEÇO TEM UM FIM. Não há dúvida, o programa realmente começara sob o signo de Escorpião.

(É fantástico… aí volta a revista dominical. Lembre-se que estamos com o mapa da parte III rodando).

V.
Após o comercial, o programa recomeça com o âncora anunciando, em tom solene, uma matéria-denúncia sobre as condições do Hospital Estadual Albert Schweitzer, da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Chega a dizer: “Parece até um hospital de um país em guerra”[6].

Aí já eram 20h37. Ascendente em Gêmeos, destacando Mercúrio, que se encontra conjunto ao Sol em Escorpião na casa 6 – a da doença.

(Fantástico Show da Vida, 2/11/2003, 20h37, Fuso 2 – horário de verão, Rio de Janeiro-RJ, Regiomontanus: Asc. 00○56´Gêmeos/M.C. 6○02´Peixes)

Vênus ainda mais angular, regendo a 12 – a dos hospitais.

A primeira coisa que chama atenção: um pronto-socorro com grades.

“Eu nunca vi uma Emergência ficar fechada. E se chegar alguém passando mal aqui? Eu nunca vi um hospital fechado com grade”, comenta uma mulher.

“O guarda é que pergunta: ‘O que está sentindo?’ Se estiver mal mesmo, morrendo, aí você entra, se não você fica na fila”, denuncia outra mulher[7].

Um hospital de guerra, com grades, sendo cuidado à sua entrada por uma espécie de Cérbero-Caronte. Para entrar naquele inferno, era necessário negociar com o cão e com o barqueiro.

Para aumentar a idéia de um pronto-socorro cuidado pela morte e abandonado à sorte (Sol quadratura Netuno), o hospital não tinha fiscalização do corpo de bombeiros e dos seus quatro elevadores, apenas um funcionava.

Nele se transporta defuntos, comida e passageiros (vídeo 1).

Um médico fala:

“Eu costumo dizer para os colegas que se o hospital fosse um fruto ele certamente estaria apodrecendo. A imagem que se forma em nossa cabeça é essa, ele certamente estaria podre.” (vídeo 2)

Fruto podre é uma imagem associada à Escorpião, o signo do auge do outono. Nessa imagem há a sabedoria da natureza: é necessário que o fruto caia no chão, apodreça a carne, para que as sementes possam vir à luz, vingando a vida.

A denúncia tem valor de derrubar o fruto no chão.

Antes de terminar o programa, o Governo do Estado do Rio de Janeiro anunciou a liberação de 10 milhões de reais para recuperação imediata do hospital.

Vale lembrar que a cidade do Rio de Janeiro[7] tem exatamente Escorpião na sua casa 6. Quer dizer, o cotidiano do Rio de Janeiro, um atributo de casa 6, estava ali sendo exibido através do Pronto-Socorro Albert Schweitzer.

Em síntese, se antes a morte ganhara contornos de aventura e rito de morte e ressurreição, no hospital que se espera ser lugar de recuperação da vida, ganha a significação de prisão, calvário e apodrecimento.
E mais: a vida está na mão de um guarda e não de um médico. A matéria termina assim:

“Na rua, junto à grade, o tumulto. O homem da chave continua cumprindo a dura missão que lhe impuseram: decidir quem tem direito a entrar na emergência de um hospital público”.

VI.

O programa segue seu rumo, exibindo seus diferentes quadros [8]:

Programa do dia 2/11/2003

Brasil – Governo do Rio vai recuperar hospital

Comportamento – O encontro na solidão

Comportamento – O apelo dos bombeiros

Comportamento – Sexo compulsivo

Comportamento – Pai ciumento

Comportamento – Teste “Ciúme de filha”

Comportamento – Teste da dependência de sexo

Cultura – Paisagens brasileiras de Rebolo

Denúncia – Caos na saúde pública carioca

Aventura e Esportes – O Havaí Brasileiro

Ciência – Neurociência: o futuro da medicina

Ciência – Tabagismo avança entre crianças

Ciência – 10 mil passos

Papo Irado – O namorado da amiga

Repórter Por Um Dia – Correspondente portuguesa

Internacional – A igreja de ossos humanos

Internacional – Contradição em Berlim

Especiais – Saudades do Hedyl

Especiais – O Catálogo de Brotos gaúchos

Especiais – O ciúme de João Pessoa do Limoeiro

Especiais – O condenado

Muitos tocando no assunto morte, como no caso O Condenado, A Igreja de Ossos Humanos e Contradição em Berlim.

E quando não, fala de outros temas caros ao signo de Escorpião: sexualidade, desejo, traição: O Encontro na Solidão, Sexo Compulsivo, Pai Ciumento, O Namorado da Amiga, O Catálogo de Brotos Gaúchos, O Ciúme de João Pessoa do Limoeiro, são alguns exemplos.

É importante destacar as matérias que foram exibidas quando algum planeta se fazia angular.

Por exemplo, às 20h49, quando Marte se torna o planeta mais angular, conjunto ao Meio-Céu, começa o quadro Feras da Pré-História.

(Fantástico Show da Vida, 2/11/2003, 20h32, Fuso 2 – horário de verão, Rio de Janeiro-RJ, Regiomontanus: Asc. 03○34´Touro/M.C. 9○14´Peixes)

Nele, a imagem a de um homem-primitivo, isto é, Marte, juntamente com a seguinte narração:

“A força bruta é que determina quem manda”. (vídeo 3)

Uma fala típica de Marte, como se falasse da realidade cotidiana na cidade do Rio de Janeiro e de outras cidades do país.

Ou ainda, da guerra USA-IRAQUE.

Aqui, no caso, uma mensagem do mundo cão: a vida é entendida como guerra e força bruta, Marte.
Quando Júpiter torna-se angular, conjunto do Fundo-do-Céu (21h12), a matéria referente ao ciúme paterno, destaca a seguinte frase:

“O que vem lá do fundo é a mãe”. (vídeo 7)

(Fantástico Show da Vida, 2/11/2003, 21h12, Fuso 2 – horário de verão, Rio de Janeiro-RJ, Regiomontanus: Asc. 08○37´Gêmeos/M.C. 15○25´Peixes)

Evidentemente, por se tratar de Júpiter, é uma voz que traz palavras de sabedoria e, no caso, Júpiter em Virgem, bom senso.

Na ocasião, avistei a aproximação de Plutão no ângulo Descendente. Esperei que Plutão desse o ar da sua graça. Nunca imaginei que veria sua tradução via tevê.

Às 21h58 ele chega junto com a matéria O Condenado.

(Fantástico Show da Vida, 2/11/2003, 20h32, Fuso 2 – horário de verão, Rio de Janeiro-RJ, Regiomontanus: Asc. 18○47´Gêmeos/M.C. 27○56´Peixes)

“Bem-vindo ao Inferno!” (vídeo 15)

Seria eufemismo comentar essa frase em se tratando de Plutão.

Plutão é rico porque é dono das almas. Preside o Hades – o Inferno grego.

Um achado, na pena de Alexandre Solnik:

“Primeiro vêm as Moiras anunciar a hora derradeira ao mortal perplexo ante os últimos instantes de vida.
Depois chegam as Queres. Cercam a vítima. Apavoram-na. Debilitam-lhe o corpo e espírito. Sangram-na com as unhas. Bebem-lhe todo o sangue. Derrotam-na.
A alma sem carne desce ao fundo da terra, sombrio reino de Hades (Plutão). Atravessa lúgubre rio na barca de Caronte, que a transporta para a morada definitiva.
A soturna viagem leva-a por uma paisagem escura e morta. Sobre o lodo das margens, salgueiros debruçam-se tristemente, como se chorassem a própria solidão. Imersas nas trevas, almas cabisbaixas percorrem, em total desalento, o tempo interminável.
A barca chega a seu destino. O passageiro sem vida desembarca, e posta-se entre as sombras, à espera dos juízes. À sua frente, dois caminhos: para o Tártaro, suplício eterno dos maus; para os Campos Elísios, eterno prêmio dos justos. O tribunal decidirá seu rumo.
Diante da alma estremecida pela ansiedade, apresentam-se os juízes: Minos, Éaco e Radamanto. Três figuras taciturnas e graves, que sem hesitação castigam ou recompensam.
Por último surge Hades, juiz dos juízes. Senhor das sombras e dos mortos. Invisível filho de Cronos (Saturno) e Réia (Cibele).
O vermelho de suas vestes destaca-se no fundo das trevas de seus domínios. Não ostenta ornatos, porém. Não chora nem sorri. No rosto pálido, esquecido da luz, carrega apenas a cansada indiferença de quem já se acostumou a pronunciar a palavra final.[09]”

Com vocês, o homem no corredor da morte:

“A morte aqui pode ser um alívio. Pode ser bem-vinda. Não vou pedir abertamente que ela venha logo. Não vou dizer que quero morrer. O que digo é que vai ser um alívio. Porque já não terei que pensar em tudo que aconteceu.” (vídeo 16)

“Não existe justificativa. Posso jogar a culpa nas drogas porque ninguém me obrigou as usá-las. Mas eu sei o que as drogas fizeram comigo. Me tornaram violento, paranóico, homicida.” (vídeo 17)

“Se a pena fosse de prisão perpétua, eu viveria aqui trancado 23 horas por dia na jaula. Trancado como um animal. Sem a oportunidade de me educar, dia após dia. Viver assim por anos e anos e anos parece ser uma condição melhor do que a pena de morte. Porque quando a pena de morte é aplicada, a punição acaba.” (vídeo 18)

O repórter pergunta:

“Você vai estar pensando em quê, no exato momento da execução?”

“Eu não sei. Vou pensar o que pensam os que chegam neste ponto. Haverá alguma coisa do outro lado depois da morte? Eu acredito em Deus. Sou cristão, embora tenha feito coisas demoníacas na minha vida. Eu quero acreditar que existe algo do outro lado.” (video 19)

“No meu caso vai ser feita a justiça.”

O repórter insiste:

“Você espera também ver Deus um dia?”

“Sim, eu vou!”, afirma o condenado. (vídeo 20)

Uma verdadeira fala da morte como redenção (Escorpião trígono Peixes). Curiosamente, no final do relato, o condenado confessa o que deseja.

Marte em Peixes, dispositor do Sol em Escorpião, o levou através de uma seringa letal.

Morreu dormindo nas águas oníricas de Peixes.

VII.

E, por fim, quando o Ascendente abriu no signo do Caranguejo, Lua em destaque, o programa noticia o presidente Lula na África.

Gilberto Gil, ministro da cultura, acompanhando-o homenageia a Lua em Peixes, cantando:

“No Woman No Cry”. (Vídeo 26)

Com nenhum planeta angular, logo em seguida, o presidente brasileiro, Luis Inácio Lula da Silva, isto é, Marte regendo a 10, a das autoridades, na 9, a do estrangeiro, pede desculpa a África e se refere ao tema da dívida.

Dinheiro, dívida, valores do outro, são assuntos análogos ao Escorpião:

“A abertura desta embaixada é o começo da recuperação, ou melhor, o começo do pagamento de uma dívida história que o Brasil tem com a África e que vamos pagar.” (Vídeo 27)


***

Por vários domingos, acompanhei o programa com o mesmo método: o céu rodando simultaneamente à programação.

Também passei a enviar e-mails à redação do programa, sugerindo na véspera o que poderia ser abordado e o momento de determinados assuntos a serem exibidos, com grande índice de acerto.

Esta prática também abre uma discussão, do ponto de vista simbólico, sobre a narração imagética, sonora e verbal proposta nas notícias produzidas e veiculadas na mídia.

A mediação do saber astrológico permite que a torrente de informações televisiva, aparentemente sem uma ordem, ganhe um nexo e outras luzes. E assim, concretize a esperança do poeta que diz, na sua canção-homenagem à TV:

Possa o mundo ser como aquela ialorixá
A ialorixá que reconhece o orixá no anúncio
Puxa o canto pra o orixá que vê no anúncio
No caubói no samurai no moço nu na moça nua
No animal na cor na pedra vê na lua vê na lua
Tantos níveis de sinais que lê
E segue inteira.[10]

Ler a TV com a Astrologia é uma espécie de drible na escuta ideológica a qual estamos submetidos, permitindo assim, ouvir e ver a dança dos deuses que se apresentam.

Analisar um programa televisivo com as lentes astrológicas significa contribuir para tornar a Astrologia presente em nosso cotidiano, desmistificando-a, aproximando-a.

Por outro lado, ao invadir o profano, o prosaico, com sua linguagem, a Astrologia pode vir, aos poucos, ocupar um lugar na cultura e reformular o seu papel na sociedade.

VIII.

Clico a tecla power do controle remoto e vou olhar a televisão do céu na poça d´água no meio fio da rua: Televisão do Céu.

 

________________________________________
[1] Santa Clara, Padroeira da Televisão (Caetano Veloso/ Circuladô, Polygram, 1991).[2] A polêmica do mapa do Grito do Ipiranga: http://www.constelar.com.br/revista/edicao46/urano1.htm

[2] Paz, Octávio. Os Filhos do Barro, Editora Nova Fronteira, pág. 93, 1974.
[3] Trimegistus, Hermes, Tábua de Esmeralda
[4] William Lilly (1602-1681), inglês, foi um dos maiores astrólogos de sua época. Escreveu Astrologia Cristã, onde versa sobre a arte da Astrologia Horária assim como fundamentos para análise de natividades.
[5] Lilly, William. Astrologia Cristã, 2ª ed. Londres: Ascella, 2001. Tradução: Marcos Monteiro. (http://mvmonteiro.blogspot.com/2007/08/christian-astrology-livro-i-captulos-vi.html)
[6] www.globo.com/fantastico[2] Idem.
[7] 1/3/1565, por volta de 15h (fuso: LMT) Local: Rio de Janeiro, RJ – 043w12, 22s54. Fonte: Lista Databrasil.
[8] O vídeo de cada matéria pode ser encontrado no site da Rede Globo: www.globo.com/fantastico
[09] Solnik, Alexandre. Mitologia. Volume Primeiro, Abril Cultural, sem data, sem local.
[10] Santa Clara, Padroeira da Televisão (Caetano Veloso/ Circuladô, Polygram, 1991).

Sobre o Autor:

João, 44, estuda Astrologia desde 1992. Criador do site Saturnália - Astrologia & Cidade, agora também Escola de Astrologia. Propõe uma astrologia enraizada nos fenômenos culturais e uma releitura crítica da astrologia antiga. Dedica-se preferencialmente à prática da Astrologia das Natividades. Nestes 26 anos, desenvolve o que chama de Dramaturgia Celeste, astrologia como linguagem, o céu como narrativa.

Deixar Um Comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.