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A CARTA ASTRAL D'A CARTOMANTE'

Dramaturgia Celeste aplicada à literatura: a carta astrológica do conto “A Cartomante[1]”, de Machado de Assis

 

1.    O conto “A Cartomante” foi publicado originalmente no jornal Gazeta de Notícias, da cidade do Rio de Janeiro, no dia 28 de novembro de 1884. Machado de Assis estava com 45 anos.

2.    “A Cartomante” é um dos contos mais conhecidos e representativos da obra machadiana, porque nele encontram-se temas recorrentes em sua obra: o triângulo amoroso, o veneno da traição e o aspecto trágico do destino.

3.    Para desenhar a carta astrológica do conto, escolhi a hora mítica dos jornais chegarem às bancas, a hora do nascer do dia, às seis horas. Era uma sexta-feira, dia de Vênus; a hora era igualmente de Vênus. Toda primeira hora do dia, é do dono ou da dona do dia. Curiosamente, a narrativa também se passa numa sexta-feira de novembro de 1869.





4.    A carta astrológica do dia 28 de novembro de 1884, 6h, Rio de Janeiro, data da publicação, é esta: Sol, Mercúrio, Marte e Ascendente em Sagitário; Vênus e Dragão em Libra, Saturno em Gêmeos e a Lua crescia em Áries, onde está a Fortuna.

5.    Júpiter, rei do Ascendente em Sagitário, na 10 de Sagitário, isto é, em Virgem. Repito: Júpiter exilado em Virgem, no alto do mundo, eis onde está a cartomante.

6.    Assim que nasce o dia, a Fortuna sempre está com a Lua. O Sol nasce, e a Fortuna está junto da Lua. A Fortuna nos diz sobre o mote da história.

7.    O cálculo do Lote da Fortuna, em mapa diurno, é o arco de distância do Sol à Lua, projetado a partir do Ascendente; em mapa noturno, é o arco de distância da Lua ao Sol, projetado a partir do Ascendente.

8.    Fortuna no signo regido por Marte narra histórias sob o signo do acidente: ódio, rivalidade, ira e derramamento de sangue, quando não coragem, heroísmo e bravura. Se é um ou outro, dependerá da qualidade do Marte.

9.    Marte, regente da Fortuna, levanta-se no horizonte leste da cidade. Marte conjunto a Mercúrio exilado.

10. Mercúrio, por sua vez, rege a Casa 7, a dos inimigos declarados. Mercúrio, na narrativa, é Camilo.

11. Por que a cartomante é Júpiter exilado? Porque Júpiter rege o Ascendente, e o regente do Ascendente é quem dá nome à história e a move. Ao ler o conto, descobrimos que a cartomante tem função motora na narrativa, e é isso o que basicamente faz o regente da 1: dá nome e move a história ao centralizar a narrativa e seus pontos de virada. O Destino está no comando.

12. Outro testemunho, que nos atesta que Júpiter é a cartomante, é o deus do trovão estar exaltado pelo Signo da Casa 8 – Câncer. A Casa 8, como todos sabem, é a porta da Morte e do Oculto. A cartomante é uma ocultista, supõe-se que sabe aquilo que ninguém vê.

13. Outro detalhe: Júpiter encontra-se em Queda, em mútua disposição com Mercúrio em Exílio, isto é, Júpiter no signo de Mercúrio, Mercúrio no signo de Júpiter, Júpiter em Virgem, Mercúrio em Sagitário: a cartomante e o Camilo, a fodida e o mal pago, respectivamente. Destaca-se a seguinte nota: Camilo não é o mal pago, já que a sortista foi bem paga por ele.

14. Júpiter, regente do signo que abre a narrativa, a Casa 1, ao estar na 10, impõe suas determinações a quem está abaixo, na ordem dos Signos. Quer dizer, se Júpiter está em Virgem, submete a todos os atores que estiverem entre Virgem e Aquário. O que faz pensar que Rita e Camilo estão entre estes Signos, e Vilela fora destes. Nas vielas da cartomancia, Vilela é o único que não consulta a cartomante. Saturno é o único que está fora do círculo de influência de Júpiter. Vilela é Saturno, evidentemente, mas já voltamos a ele.

15. Rita é a Vênus, a um passo de encontrar seu exílio. Vênus em grau anarético. E o pior não é a Vênus estar no grau 29 da Libra, o que já seria bastante instável, mas sim estar a um passo de seu exílio. Vênus, em Libra, à beira do Escorpião. Além disso, ao se exilar no signo da peçonha, Vênus ingressa a Casa 12, a dos inimigos ocultos.

16. Rita também é o Sol, presumo. Isso porque o Sol é o errante que faz aspecto exato com Júpiter, com a cartomante. E anote esta regra de ouro: é sempre o planeta mais rápido que se dirige ao planeta mais lento. Assim sendo, o Sol, Rita, dirige-se a Júpiter, a cartomante. É como Machado abre a história: Rita falando a Camilo que procurou uma cartomante e o quanto o amor deles é chancelado pelo destino.

17. Já Camilo é Mercúrio, o mais jovem, em aparência, entre os três. Como tem Marte ao lado de Mercúrio, dizemos que Camilo é Mercúrio-Marte. Quer dizer, Mercúrio, Camilo, está conjunto ao pior maléfico da carta, Marte. Em mapa diurno, Marte é sempre o pior vilão.

18. Repare nisto: Mercúrio-Marte em oposição a Saturno. Este é o outro indício de que Vilela é Saturno, o que aparenta ser o mais velho, com sua expressão grave. Vilela, o marido traído, encara e recebe Mercúrio, exilando-o.

19. Repare mais uma vez: Mercúrio-Marte em oposição a Saturno – é aqui que há o ponto de tensão da história. Aspecto de oposição caracteriza antagonismo sem o qual não há história. Por isso, o antagonismo, para o bem de qualquer narrativa, sempre é bem-vindo e até desejado, eu diria.






20. E, por fim, a Lua, a grande roteirista dos céus e da terra, nos conta sobre o movimento das cenas, costurando a narrativa. Por isso, a fiz andar um dia e grifei seus aspectos: a Lua ativa o Sol quadrado a Júpiter. Assim, a Lua leva Sol e Júpiter ao ponto do eclipse, ao Nodo Sul, na Casa 5, a do amor e romance; depois, a Lua encontra a Fortuna, o mote, e faz mover a história; e, a essa altura, dentro de um dia, Mercúrio já confrontava perfeitamente Saturno.

21. Refaçamos a narrativa: o conto começa com a Lua endereçando a si própria, através do diálogo entre Hamlet e Horácio, “há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia (ASSIS, 1959, p. 477)”;


ativa a quadratura Sol/Júpiter, isto é, a Rita, o Sol, que conta que procurou uma cartomante, Júpiter; em seguida, Machado faz um flashback e nos conta sobre a vida anterior das personagens e como chegaram até ali; quando há flashback podemos pensar nos aspectos anteriores que a Lua fez; a Lua vinha de aspectos a Mercúrio e Saturno, mostrando a amizade entre dois homens, um com aparência mais velha e outro mais jovem; Saturno e Mercúrio são da Triplicidade que rege a Casa 11, a dos amigos;


a história segue e encontra o elemento desestabilizador, o grau do eclipse e a Fortuna, isto é, as cartas anônimas chegam; os graus dos Nodos, a Fortuna e Mercúrio funcionam como pontos de reviravolta; possuem o poder de desestabilizar a história e, com isso, colocá-la em movimento;


o regente do Nodo Sul e da Fortuna, Marte, rege a 12, a dos inimigos ocultos, as cartas anônimas são remetidas a partir desta casa;


a Lua caminha para cena final e ativa o antagonismo maior, a oposição Mercúrio-Marte / Saturno: o inimigo torna-se declarado, os rivais se reconhecem e se encaram;


enquanto a Lua caminhava, a Vênus chegara ao exílio por signo e casa;

e deu no que deu.

22. Machado de Assis é tão sagaz que faz da cegueira da cartomante, essa espécie de operária da sorte, agente do curso trágico da vida, esse caminhar cego cotidiano em direção ao abismo.

23. Alguém pode estar se perguntando: -- Mas como que isso tudo ajuda o astrólogo, a astróloga, na hora de ler o mapa? A dramaturgia celeste lembra que o mediador dos jogos oraculares, e a astrologia é um oráculo para se situar e imaginar, encontra-se em algum ponto do mapa de quem o procura. O astrólogo é a cartomante de quem o procura.


texto: João Acuio

revisão e notas: Cartol Tomasi


[1] O conto “A cartomante” foi compilado em Várias Histórias (Edição da Nova Aguilar, p. 477-483). Antes do conto, Machado de Assis coloca ao leitor uma nota de Advertência: “ADVERTÊNCIA: Mon ami, faisons toujours des contes... Le temps se passe, et le conte de la vie s’achève, sans qu’on s’en aperçoive DIDEROT (Meu amigo, contemos sempre histórias... O tempo passa, e a história da vida se encerra, sem que percebamos). AS VÁRIAS HISTÓRIAS que formam este volume foram escolhidas entre outras, e podiam ser acrescentadas, se não conviesse limitar o livro às suas trezentas páginas. É a quinta coleção que dou ao público. As palavras de Diderot que vão por epígrafe no rosto desta coleção servem de desculpa aos que acharem excessivos tantos contos. É um modo de passar o tempo. Não pretendem sobreviver como os do filósofo. Não são feitos daquela matéria, nem daquele estilo que dão aos de Mérimée o caráter de obras-primas, e colocam os de Poe entre os primeiros escritos da América. O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias, é naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos”. M. de A. Para ler A Cartomante, clique aqui.


SELINA 1 - A CARTA ASTRAL D´A CARTOMANTE

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