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TRATADO DA NEGAÇÃO POR RAPHAEL BALDAYA




Raphael Baldaya é a pessoa do Fernando Pessoa que estuda astrologia e outros assuntos do ocultismo. Abaixo, o seu Tratado da Negação:


Raphael Baldaya

TRATADO DA NEGAÇÃO


1. O Mundo é formado de duas ordens de forças: as forças que afirmam e as forças que negam.

2. As forças que afirmam são as forças criadoras do mundo, emanadas sucessivamente do Único, centro da Afirmação.

3. As forças que negam emanam de além do Único.

4. O Único, de quem Deus, o Deus Criador das Coisas, é apenas uma manifestação, é uma Ilusão. Toda a criação é ficção e ilusão. Assim como a Matéria é uma Ilusão, provadamente, para o Pensamento; o Pensamento uma ilusão para a Intuição; a Intuição uma ilusão para a Ideia Pura; a Ideia Pura é uma Ilusão para o Ser. E o Ser é essencialmente Ilusão e Falsidade. Deus é a Mentira Suprema.

5. As forças que negam são aquelas que partem de além do Único. Fora do Único, para a nossa Inteligência, não há nada. Mas como é possível pensar que esse Único não existe, como é possível negá‑lo, ele não é o Único, o Supremo, o realmente Supremo (aqui os termos faltam). Poder negá‑lo é negá‑lo; negá‑lo é e]e não ser.

6. A negação suprema é aquilo a que nós chamamos o não‑Ser. O Não‑Ser não é pensável, porque pensar o não‑ser é não pensar. E contudo, visto que empregamos o termo não‑ser, ele é pensável, de certo modo. Desde que é pensado, torna‑se o Ser. Assim o Ser sai, por oposição do Não‑Ser. O Não‑Ser é que o precede, para falar a linguagem humana.

7. A Matéria, que é a maior das negações do Ser, é o estado que, por isso, mais próximo está do Não‑Ser. A Matéria é a menor das Ilusões, a mais fraca das mentiras. De aí o seu carácter de Evidente. À medida que o Ser se vai manifestando, vai‑se negando; à medida que se vai negando, vai criando o Não‑Ser. Como o Não‑Ser é anterior ao Ser, essa negação que o Ser faz de si‑próprio é uma criação, se assim é possível falar.

8. Devemos ser criadores de Negação, negadores da espiritualidade, construtores de Matéria. A Matéria é a Aparência; a Aparência é ao mesmo tempo o Ser e o Não‑Ser. (Se a Aparência não é o Ser, é o Não‑Ser. Se é o não‑ser, não é a Aparência. Para ser a Aparência, ela tem, portanto, que ser o Ser.)

9. A negação consiste em auxiliar o Manifestado a manifestar‑se mais, até ele se dissolver em Não‑Ser.

10. Há dois princípios em luta: o princípio de Afirmação, de Espiritualidade, de Misticismo, que é o Cristão (para nós, actualmente), e há o de Negação, de Materialidade, de Clareza, que é o Pagão. Lúcifer — o portador da Luz, é o símbolo nominal do Espírito que Nega. — A revolta dos anjos criou a Matéria, regresso ao Não‑Ser, libertação da Afirmação.

11. Há realmente todos os mundos que os teósofos afirmam. Mas eles estão dentro da Ilusão, que, enquanto existe, é a Realidade. Deus existe com efeito para si‑próprio; mas Deus está enganado. Como qualquer de nós julga existir, e para Deus não existe, senão como parte dele, e isto é não-existir, em absoluto; assim, Deus julga existir e não existe. O próprio ser é o Não‑Ser do Não-Ser apenas, a afirmação mortal, da Vida.


1916?

Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993).


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