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Um tarot para Sandman - texto 6




A FEIURA. UM ANZOL. O DEDO NO GATILHO.


Segunda feira, dia de Conversa Cartomântica no Saturnália. Eu sou Emanuel J Santos e vou ser seu guia até a metade do caminho. Desesperadamente, esse texto possui spoilers. A escolha ainda é sua, e eu não me responsabilizo por ela.


Os olhos dela são gris. Seu cabelo é desgrenhado e úmido. Seus dedos, inchados. As unhas estão roídas e quebradiças. Os dentes dela são coisas tortas e chanfradas. Há um vazio no olhar, uma sensação de ausência quando se está perto dela que não se pode verter em palavras. Seu signo é o anel com gancho. Certo dia, esse gancho fisgará seu coração.

O primeiro retrato | 15 Retratos de Desespero


Gorda! Feia! Velha! Horrorosa! Nojenta! Asquerosa! Infame!

Desespero é um bullying ambulante. Pense naquilo que lhe coloca em posição de ridículo: Desespero está ali. Desespero é o fim da linha, é o dedo no gatilho, a faca no pulso, a taça de veneno, o frasco inteiro de remédio goela abaixo. Desespero é a solidão. Não a solitude.

Na presença dela, a alegria é inimaginável. O primeiro retrato | 15 Retratos de Desespero


Assim como no texto/Perpétuo anterior, estamos lidando com uma figura que tem um livro de Umberto Eco só para ela: Recomendo A História da Feiura para entender um pouco mais sobre como os homens viam Desespero, como o Inferno, manifesta nos outros.

Uma nota sobre a ordem dos textos: Ainda que Desejo e Desespero estejam sob o signo de Gemini, em Sandman, estamos diante da segunda Desespero. A primeira se foi em circunstâncias que não são sabidas – uma das janelas que Gaiman deixou para fora de sua história. Não sei se deveríamos saber, a propósito. Mas a janela está ali... Vê?


[Destruição] - Eu me lembro de quando ela assumiu o manto do Desespero... Quando se tornou gêmea de Desejo. [Delirium] - Acho que não foi... hã... fácil para ela. [Morpheus] - Não foi fácil para ninguém. Foi a única vez que um dos Perpétuos fora destruído, que outro aspecto de um de nós reassumira a posição: todos nós tivemos que nos ajustar.

Sandman #48


A feiura tem uma face no baralho, embora a face da feiura esteja em todas as cartas, reverso de sua beleza original. Como disse anteriormente, não é possível considerar em profundidade o Tarô tomando-o como um instrumento maniqueísta. Entretanto, é difícil, porém possível, definir Desespero em várias cartas – ela é bem pontual, mas está de tocaia em todos os lugares.

O beijo dela é o oceano profundo.

O beijo dela não é o oceano profundo. O beijo dela é o céu cinza.

O beijo dela é um beco sem saída.

O beijo dela é seu toque é seu hálito são seus dedos é o que resta depois que a gargalhada termina.

O beijo dela é o cão negro que o segue nas trevas.

Há um cão negro abaixo do céu cinza, nas cercanias do beco sem saída, à beira do oceano profundo. Não é o beijo dela. Chegue mais perto...

9 | 15 Retratos de Desespero


Viro uma carta. O Arcano XII me observa em diáfano Desespero: Eis o Enforcado. Embora o título original da carta não seja esse – “The Hanging Man” pode tanto ser o Enforcado como o Pendurado, e nos baralhos franceses essa carta chama-se apropriadamente “Le Pendu” – eu não julgo inapropriado o título “Enforcado” como tradução, que, gerando novos efeitos de sentido, corrobora aspectos presumíveis da carta. [Uma vez eu escrevi sobre isso... Aqui: https://goo.gl/sqVUPB]

Em resumo, o enforcamento tanto pode ser um castigo – e este homem está sendo castigado por forças que estão para além do seu controle, amarrado em seu próprio arrependimento – como pode ser uma derradeira escolha. Como pode ser a Sombra que paira sobre todos os olhares. Os olhos que nos colocam de joelhos. O reflexo no espelho arranhado de lágrimas.

Ela decide fazer uma lista das coisas que a fazem feliz. Escreve “flor de ameixeira” no topo de uma folha de papel. Então fita o papel, Incapaz de pensar em algo mais.

Por fim, começa a escurecer.

3 |15 Retratos de Desespero


Ah, sim. Hoje falaremos sobre suicídio. Um tema que Desespero conhece bem, e sorri ao saber. Ninguém suicida porque quer tirar a vida. Ninguém suicida porque quer morrer. Suicida-se porque viver está doendo demais. Em um átimo, se toma uma decisão que foi acalentada por dias. Semanas. Meses. Anos. "Pelo tempo de uma vida", diria Desencarne. Diz-se que o suicida é um covarde. Há quem, em posição contrária, diz que para se lançar mão da vida tem que ter muita coragem. Eu digo que nenhuma pessoa sabe o que é a experiência de pensar que não há mais esperança alguma, futuro algum, caminho nenhum que faça sentido, até que saiba. Se você não sabe o que é quase chegar ao fim da linha, você não sabe. Um coração partido, rasgado sob o anzol. Uma empresa que quebra em mil ações distribuídas na Bolsa de Valores. Uma proposta de um céu repleto de deleites inimagináveis enquanto envolto em carne. A beleza que se foi, a carreira que escorreu entre dedos cinzentos. A leitura de um livro [Duvida? https://goo.gl/eZJ8Tp]. Uma música [https://youtu.be/xHpYyKqgzks]. Um vazio, tão sombrio, tão expansivo e corrosivo que retira toda e qualquer possibilidade de encarar um caminho que ladeie a queda. Ou a solidão.

[…] Elimine o desespero e não restará nada. Nada a não ser uma sala vazia, um gancho de forma e tamanhos perfeitos para prender seu coração.

10 | 15 Retratos de Desespero


Há, também, aqueles que, descobrindo uma doença incurável, ou pertencendo a um determinado grupo – grupos, em seu aspecto mais sombrio, são teias, redes de anzóis que Desespero usa para encobrir a individualidade fragmentada – não se conformam em abraçar A Mais Velha sozinhos. E causam dano, perda, dor, catástrofe, na vida de quantos puderem. Desespero, quando estende seus braços, não visa aconchegar ninguém. Ela é o horror. O horror. Ela é o terror. Ela é banhada em pavor. Ela empasta a língua. Não há o que dizer.

*

Há a perspectiva, ainda que especulativa, de que cada Perpétuo possua em si a semente do polo oposto ao seu nome. Assim, Desespero possuiria em si a semente da Esperança – a mesma Esperança que abriu os caminhos do Inferno para Morpheus sair de lá, incólume, com seu elmo. Então, querido leitor, quando você entrar nos domínios de Desespero e não ver nada além de espelhos e brumas, e sentir-se rodeado por ratos que roem o que resta de você - lentamente... -, lembre-se da semente que brota por lá. Há Esperança. Até o ruflar das ruidosas asas de Desencarne, há Esperança. Mesmo em Desespero há Esperança. Que isso seja um mantra.

Sem triunfo, sem amor, sem alegria, o trabalho dela seria em vão.

7 | 15 Retratos de Desespero


Eu tive o cuidado de não ir muito fundo nesse texto, por isso ele está curto. Sugiro que você tenha o mesmo cuidado ao lê-lo. Mas é um conselho vazio: agora você já leu.

Lembre-se: Desespero é o gatilho. Mas é você quem puxa, enquanto ela assiste.

E eu não puxei três cartas dessa vez.

Até a próxima segunda feira.


REFERÊNCIAS

“15 Retratos de Desespero”. In: Sandman: Noites Sem Fim. Barueri: Panini Books, 2004.


Emanuel J Santos


P.s.: este texto foi publicado originalmente aqui: https://www.facebook.com/Saturnalia/photos/a.10150369632207293/10155861171147293/; a imagem é de autoria do Emanuel; o Corvo da Saturnália foi criado pelo Gabriel Breviglieri.

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